Hellraiser é um clássico
consumado do horror. O primeiro filme roteirizado e dirigido por Clive Barker
(baseado em sua obra escrita) é um primor da maquiagem e do gore sofisticado.
Sua sequência direta manteve a qualidade técnica mesmo que Barker apenas a produzisse.
A terceira parte, mais distante da marca do talentoso britânico, ainda é um filme
divertido e com bons momentos (e mais tempo de Pinhead em tela). Dali para
frente a franquia viraria uma bagunça tremenda, sem eira nem beira. Reparando
no elenco e na trama dos 3 primeiros filmes é fácil ver que há uma presença bem
forte de personagens femininas muito interessantes, vamos conhecer:
Kirsty Cotton (Ashley Laurence):
Nossa protagonista é uma das melhores Final Girls do terror. Kirsty já rompia noa anos 80 algumas barreiras do estereótipo de protagonistas femininas que sobreviviam ao final dos filmes. A moça é esperta, corajosa, abertamente independente e sexual, sem ser sexualizada. Kirsty toma a frente das situações de perigo para no primeiro filme tentar salvar seu pai dos planos da esposa Julia e de seu amante, o despelado Frank (também tio de Kirsty), e na sequência ajudar a jovem Tiffany do doutor Philip Channard, que quer usar a fixação da menina por enigmas para abrir a Configuração do Lamento. Também enfrenta na segunda parte mais uma vez a madrasta Julia, tudo sem a ajuda significativa de nenhum homem. Na verdade, nessa trilogia não há muitos homens no lado dos mocinhos.
Kirsty Cotton merece todos os louvores dos fãs do terror por ser uma
ótima personagem e nos entregar mais do que os clichês preguiçosos querem nos
dar. Uma boa mocinha merece uma vilã à altura, vamos à Julia Cotton portanto.
Julia Cotton (Clare
Higgins):
Julia é em minha opinião a melhor personagem de Hellraiser, depois do
Pinhead, claro. Num primeiro momento ela é só uma mulher comum, casada e numa
vida padrão. Mas quando descobrimos do caso que tinha com o cunhado Frank,
percebemos que por baixo da aparência certinha e controlada de Julia tem um
tipo de distorção, um fogo assassino que só Frank conseguia entender (porque
ele também o tinha). Mesmo assim, Julia reluta em se entregar completamente aos
planos infernais do amante, pois ela nutre algum amor por Larry, seu marido. Não é fácil
entender Julia, até o final ela é instigante.
Quando enfim ela abraça o lado mal, Julia retorna do inferno como uma
ameaça maior do que Frank foi no primeiro filme. A atriz Clare Higgins entrega
de longe a melhor atuação do elenco humano de Hellraiser, e cria uma personagem
cheia de nuances que merecia mais reconhecimento.
2.
Hellraiser II: Renascido das Trevas:
Tiffany (Imogen Boorman):
Aparecendo apenas na segunda parte da trilogia, a personagem de Imogen
é uma menina traumatizada, que não fala muito no filme. Tiffany era uma garota
inteligente, de modo matemático. Não havia nada que ela gostasse mais do
que resolver enigmas o que desperta o interesse do doutor Philip Channard, um
médico com intenções obscuras e nada ético no tratamento de seus pacientes. Internada
no mesmo hospital para onde Kirsty é levada após os eventos do primeiro filme,
as duas viram amigas e ambas lutam com muita bravura para sair do inferno
(literalmente). Não há muita coisa a se destacar sobre Tiffany nesse filme (foi nos
quadrinhos que ela ganhou mais importância), mas é interessante que tenham escolhido
mais uma mulher para acompanharmos durante o filme e uma mulher cuja inteligência é a maior qualidade.
3.
Hellraiser III: Inferno na Terra:
Joey Summerskill (Terry
Farrel):
Joey é uma jornalista desesperada por uma história interessante para trabalhar. Em uma noite ela e sua equipe estão num hospital à espera de algo importante
acontecer, quando uma vítima dos cenobitas cruza as portas do local e ela acaba
testemunhando a ida do homem para as mãos infernais deles. Ela, obviamente
começa a investigar o caso e acaba se deparando com os mistérios sobre a
identidade humana de Pinhead, o Capitão Eliott Spencer. O homem chega até ela
através de seus sonhos com o falecido pai, que também era soldado.
Spencer pede a ajuda de Joey para mandarem Pinhead de volta ao inferno
de onde ele conseguiu escapar e impedi-lo de tornar a terra uma extensão de sua
casa.
Joey é inteligente e corajosa, ainda que o filme em si não colabore em
alguns momentos, é legal que tenham mantido o protagonismo nas mãos das mulheres.
Terri (Paula Marshall):
Durante as investigações de Joey ela acaba chegando a um clube
noturno, onde se encontra o artefato que encerrava Pinhead e a Configuração,
comprado pelo dono do clube. O sujeito tinha uma namorada chamada Terri, que
acaba testemunhando algumas coisas estranhas e é quem leva a Configuração para
Joey.
O que eu acho muito bacana na terceira parte de Hellraiser é
justamente essa amizade inesperada entre Joey e Terri, eu tinha certeza que a
situação não duraria muito, mas Joey até chama a moça para morar em seu
apartamento para mantê-la segura. A amizade delas é muito legal de assistir e é
espantoso que um filme trash de terror dos anos 80 consiga fazer o que a
maioria de hoje não consegue: passar no Teste de Bechdel com louvor.
Boa parte do filme é com Joey e Terri conversando sobre suas vidas e
sobre o mistério que precisam resolver. Mesmo que, mais uma vez, o roteiro não
saiba aproveitar melhor isso.
É bom perceber que alguns dos meus filmes de terror prediletos dos
anos 80 reservam algumas surpresas interessantes mesmo depois de muito tempo. Como a representação feminina é algo que prezo bastante, é ainda melhor me dar
conta que mesmo com falhas, esses filmes podem trazer personagens interessantes
e marcantes para a história do terror.


















































