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ARQUIVO MALDITO



Hellraiser é um clássico consumado do horror. O primeiro filme roteirizado e dirigido por Clive Barker (baseado em sua obra escrita) é um primor da maquiagem e do gore sofisticado. Sua sequência direta manteve a qualidade técnica mesmo que Barker apenas a produzisse. A terceira parte, mais distante da marca do talentoso britânico, ainda é um filme divertido e com bons momentos (e mais tempo de Pinhead em tela). Dali para frente a franquia viraria uma bagunça tremenda, sem eira nem beira. Reparando no elenco e na trama dos 3 primeiros filmes é fácil ver que há uma presença bem forte de personagens femininas muito interessantes, vamos conhecer:

 1.       Hellraiser: Renascido do Inferno:

Kirsty Cotton (Ashley Laurence):


Nossa protagonista é uma das melhores Final Girls do terror. Kirsty já rompia noa anos 80 algumas barreiras do estereótipo de protagonistas femininas que sobreviviam ao final dos filmes. A moça é esperta, corajosa, abertamente independente e sexual, sem ser sexualizada. Kirsty toma a frente das situações de perigo para no primeiro filme tentar salvar seu pai dos planos da esposa Julia e de seu amante, o despelado Frank (também tio de Kirsty), e na sequência ajudar a jovem Tiffany do doutor Philip Channard, que quer usar a fixação da menina por enigmas para abrir a Configuração do Lamento. Também enfrenta na segunda parte mais uma vez a madrasta Julia, tudo sem a ajuda significativa de nenhum homem. Na verdade, nessa trilogia não há muitos homens no lado dos mocinhos.


Kirsty Cotton merece todos os louvores dos fãs do terror por ser uma ótima personagem e nos entregar mais do que os clichês preguiçosos querem nos dar. Uma boa mocinha merece uma vilã à altura, vamos à Julia Cotton portanto.


Julia Cotton (Clare Higgins):


Julia é em minha opinião a melhor personagem de Hellraiser, depois do Pinhead, claro. Num primeiro momento ela é só uma mulher comum, casada e numa vida padrão. Mas quando descobrimos do caso que tinha com o cunhado Frank, percebemos que por baixo da aparência certinha e controlada de Julia tem um tipo de distorção, um fogo assassino que só Frank conseguia entender (porque ele também o tinha). Mesmo assim, Julia reluta em se entregar completamente aos planos infernais do amante, pois ela nutre algum amor por Larry, seu marido. Não é fácil entender Julia, até o final ela é instigante.


Quando enfim ela abraça o lado mal, Julia retorna do inferno como uma ameaça maior do que Frank foi no primeiro filme. A atriz Clare Higgins entrega de longe a melhor atuação do elenco humano de Hellraiser, e cria uma personagem cheia de nuances que merecia mais reconhecimento.


2.       Hellraiser II: Renascido das Trevas:

Tiffany (Imogen Boorman):


Aparecendo apenas na segunda parte da trilogia, a personagem de Imogen é uma menina traumatizada, que não fala muito no filme. Tiffany era uma garota inteligente, de modo matemático. Não havia nada que ela gostasse mais do que resolver enigmas o que desperta o interesse do doutor Philip Channard, um médico com intenções obscuras e nada ético no tratamento de seus pacientes. Internada no mesmo hospital para onde Kirsty é levada após os eventos do primeiro filme, as duas viram amigas e ambas lutam com muita bravura para sair do inferno (literalmente). Não há muita coisa a se destacar sobre Tiffany nesse filme (foi nos quadrinhos que ela ganhou mais importância), mas é interessante que tenham escolhido mais uma mulher para acompanharmos durante o filme e uma mulher cuja inteligência é a maior qualidade.


3.       Hellraiser III: Inferno na Terra:

Joey Summerskill (Terry Farrel):



Joey é uma jornalista desesperada por uma história interessante para trabalhar. Em uma noite ela e sua equipe estão num hospital à espera de algo importante acontecer, quando uma vítima dos cenobitas cruza as portas do local e ela acaba testemunhando a ida do homem para as mãos infernais deles. Ela, obviamente começa a investigar o caso e acaba se deparando com os mistérios sobre a identidade humana de Pinhead, o Capitão Eliott Spencer. O homem chega até ela através de seus sonhos com o falecido pai, que também era soldado.


Spencer pede a ajuda de Joey para mandarem Pinhead de volta ao inferno de onde ele conseguiu escapar e impedi-lo de tornar a terra uma extensão de sua casa.

Joey é inteligente e corajosa, ainda que o filme em si não colabore em alguns momentos, é legal que tenham mantido o protagonismo nas mãos das mulheres.


Terri (Paula Marshall):


Durante as investigações de Joey ela acaba chegando a um clube noturno, onde se encontra o artefato que encerrava Pinhead e a Configuração, comprado pelo dono do clube. O sujeito tinha uma namorada chamada Terri, que acaba testemunhando algumas coisas estranhas e é quem leva a Configuração para Joey.


O que eu acho muito bacana na terceira parte de Hellraiser é justamente essa amizade inesperada entre Joey e Terri, eu tinha certeza que a situação não duraria muito, mas Joey até chama a moça para morar em seu apartamento para mantê-la segura. A amizade delas é muito legal de assistir e é espantoso que um filme trash de terror dos anos 80 consiga fazer o que a maioria de hoje não consegue: passar no Teste de Bechdel com louvor.


Boa parte do filme é com Joey e Terri conversando sobre suas vidas e sobre o mistério que precisam resolver. Mesmo que, mais uma vez, o roteiro não saiba aproveitar melhor isso.

É bom perceber que alguns dos meus filmes de terror prediletos dos anos 80 reservam algumas surpresas interessantes mesmo depois de muito tempo. Como a representação feminina é algo que prezo bastante, é ainda melhor me dar conta que mesmo com falhas, esses filmes podem trazer personagens interessantes e marcantes para a história do terror.



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Em 2009, Sam Raimi saiu do hiato enorme e lançou um novo filme de terror: Arraste-me Para o Inferno. A promessa era de retornar às origens e isso ele fez muito bem, me lembro de que quando vi o filme eu morri de medo, na época a união de humor e horror fazia tudo parecer mais assustador pra mim (talvez ainda faça).

Olhando para o filme em 2019, eu percebo o quão ele é esperto e brinca com as convenções do gênero de filmes demoníacos e com as nossas expectativas, o que parece ser algo de que Sam Raimi gosta bastante. Vamos analisar o filme mais de perto para entender como Raimi enxerga os heróis de seus filmes bem como a temática do sucesso e fracasso em suas narrativas.




1. Os Heróis Nada Heróicos de Raimi:

Em 1981, Raimi lançou o primeiro filme de uma trilogia que mudaria o cinema de terror: The Evil Dead: A Morte do Demônio ou Uma Noite Alucinante. A combinação maluca de comédia e terror gore daria muito certo e colocaria Raimi no hall da fama do horror. Seu protagonista, Ash Williams (interpretado de forma brilhante e magnífica por Bruce Campbell), no entanto, não era bem o típico herói de filme de terror que se tinha até então. Ash é desagradável, burro, inconsequente, imaturo e só faz merda, não tem praticamente nenhuma virtude louvável que nos inspire e cause admiração.

Mais adiante, em 2001, temos o Peter Parker de Raimi. O Peter de Tobey Maguire é um perdedor, até demais da conta (e por isso mesmo, o melhor de todos), só que muita gente se sente desconfortável com ele exatamente por essa razão. Para deixar mais claro vejam esse vídeo do Tralhas do Jon. Ele não é o herói machão viril que muitos desejavam que fosse.




2. A Rainha dos Porcos:

Sendo assim, chegamos na “heroína” de Arraste-me Para o Inferno: Christine Brown (Alison Lohman). Christine é uma moça do interior que fez carreira na cidade grande, conseguiu um namorado legal e bem de vida e tem uma possível promoção no banco em que trabalha batendo na porta dela. Pressionada por um chefe que não a leva a sério e um concorrente puxa saco, Christine faz uma coisa totalmente imoral.

Numa tarde, ela atende a velha cigana Sylvia Ganush (Lorna Raver). A mulher tem um olho cego, tosse catarro num lenço e não é nem um pouco o retrato de velhinha fofa que desperta simpatia. Mesmo assim, ainda era só uma senhora à beira de perder a própria casa para um banco ricaço.

De olho na promoção, Christine nega a extensão do prazo de Ganush fazendo a mulher implorar por uma chance a mais na frente de todos. A cena é desconfortável de ver. Pausa para uma memória de Homem-Aranha: lembram-se da cena em que a tia May e o Peter vão até o banco resolver uma questão de empréstimo e a pobre May é humilhada pelo funcionário que os atende? Aqui nós temos a situação ao contrário, mais ou menos. A intenção é a mesma, despertar nossa compaixão.

Christine lendo a sorte com Ram Jas.

Christine Brown é apresentada como uma jovem ambiciosa e egoísta, que passa em cima da moral para conseguir o que quer (assim como os bancos são, hhmmm). Brown é então amaldiçoada por Ganush, em três dias o demônio Lâmia vai buscar sua alma e leva-la para o Inferno.

Depois da primeira aparição do demônio, Christine faz de tudo para se salvar (até mata um filhote de gatinho, mesmo sendo defensora dos animais e etc). A cada investida nós vemos a pressão e o sofrimento de Christine, mas a nossa simpatia por ela é ambígua. Isso é uma coisa ótima, principalmente porque ela é uma protagonista mulher. É coisa raríssima que mulheres de moral duvidosa sejam as protagonistas dos filmes, sempre reforçam que as mulheres são seres angelicais, meigos e bondosos, sempre fazendo o que é ético. Ver uma protagonista como Christine é uma subversão maravilhosa para o cinema de terror, mesmo que seja natural para Raimi imagina-la assim.




3. O Fracasso e Um Final Feliz?

O tema do fracasso é algo que Raimi aprecia bastante. Seu Ash Williams tinha a missão de lembrar 3 palavrinhas e salvar o mundo, ele falha. Onde ele tem a chance de acertar, ele erra. Mesmo que no fim ele conserte as coisas, o erro foi dele só para começar.

O Peter de Raimi é, como eu disse, um fracassado. Tá sempre se ferrando em tudo, como o filme é de outro gênero há os momentos de brilho, obviamente, mas ele sempre deixa que Peter experimente uma vitória amarga, nunca a doce glória.

O tema do herói que tenta, tenta e tenta, mas não consegue é familiar para o diretor. Não é diferente com Christine Brown. Mesmo atravessando várias situações ruins e se esforçando muito para se salvar, ela comete um erro. Um de vários durante o filme. E vai para o inferno.

Pouco antes de morrer, Christine admite que tinha a escolha de não expulsar Ganush da própria casa, mas o fez. Sendo assim, será mesmo que o seu final não foi justo?

Tomando um banho de lama com a senhora Ganush.

A trama do filme poderia ser a jornada de Brown aprendendo a impor-se e enfrentar as suas questões pessoais mal resolvidas, triunfando num final colorido e apoteótico. Mas não é assim. Christine (e o banco) causou a morte de uma senhora que não tinha para onde ir, simplesmente não seria muito legal que ela tivesse sua glória. Individualismo não é algo que Raimi pareça gostar de recompensar em suas obras.

O final de Arraste-me Para o Inferno é subversivo porque estamos acostumados a ver nossos protagonistas triunfarem, mesmo que às vezes eles não mereçam. Sob outra perspectiva, Christine Brown é a vilã da história.

Sam Raimi, depois de décadas conseguiu nos brindar com mais um clássico do terror. Mesmo sem todas essas subversões, Arraste-me ainda é um filme divertido, gore e um trash honesto e orgulhoso. Filmes como esse me lembram porque eu amo tanto o terror.
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Uma estrada longa e escura para uma noite longa e escura. Esse é o sentimento que assola quem escolhe assistir a antologia de terror Southbound, misto de road movie e terror cósmico, com trama complexa que não será do agrado de quem prefere algo mais explicadinho. Os responsáveis pelo filme são os idealizadores de "VHS", outra produção antológica de terror.

Cada uma das cinco histórias é conduzida por um diretor diferente e estão interligadas entre si não de forma causal, mas como referência. Como é de praxe de antologias algumas tramas se saem melhores do que outras.


O primeiro segmento "The Way Out" (Radio Silence), acompanha dois homens fugindo de seres alados bizarros, e que vão parar numa lanchonete de beira de estrada com um clima estranho. Eles embarcam num tipo de "eterno despertar", sempre voltando pro mesmo ponto onde pararam. De cara, o filme já instiga o espectador com tanto mistério. O movimento de ciclo do filme está bem começado.


O segundo segmento "Sirens", dirigido por Roxanne Benjamin (também diretora em XX, com a história "Don't look down") é o que melhor faz referência ao terror cósmico lovecraftiano que toda a produção carrega e que eu particularmente adoro. Na trama três jovens amigas estão viajando para fazer um show com sua banda quando o pneu do carro fura e elas ficam à deriva na estrada. Há um trauma recente entre elas por conta da morte da quarta integrante da equipe. Logo elas são abordadas por um casal solícito e estranho que oferece carona e ajuda com o carro, elas aceitam com relutância e vão para a casa com os dois.

Chegando no tal lugar a esquisitice só aumenta, com um jantar nojento e uma oração bizarra à mesa que evoca algo ritualístico e nem um pouco cristão. Apenas uma das moças não come a comida e logo após o jantar suas duas amigas passam mal e vomitam uma gosma preta e parecem se transformar em outras pessoas disso em diante as coisas só pioram, com muitas referências ao culto de Cthulhu e afins. 


O terceiro momento da antologia é "The Accident" (David Bruckner) em que um sujeito atropela uma mulher na estrada e vive um verdadeiro pesadelo na tentativa de salvar a vida dela. Esse é o que tem cenas com maior teor de sangue e uma cena verdadeiramente tensa envolvendo um tipo de cirurgia. É uma produção bem agoniante e é impossível não torcer as mãos e virar o rosto em muitos momentos.


A quarta parte entitulada "Jailbreak" (Patrick Horvath), acompanha um homem procurando a irmã desaparecida em um bar de criaturas demoníacas, é interessante e traz elementos bem legais pra reforçar as referências à Lovecraft, mesmo que seja a parte mais fraca do filme.

Por fim temos "The Way In" (Radio Silence), a última história fecha o ciclo e mostra uma família cuja casa é invadida por homens mascarados que tentam mata-los. O final é um show à parte com efeitos muito legais e que encerra com chave de ouro a produção.

Não espere um final revelador e que vai tirar suas dúvidas, a intenção é causar no espectador a mesma sensação de confusão e desolamento ante o desconhecido que os personagens vivenciaram. Como um pesadelo estranho do qual a gente acorda antes de entender seu propósito. E isso é perfeito. 


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Há muitos anos venho dizendo aos publicitários dos filmes em que eu participo: "Quando você marcar a entrevista com o jornalista, por gentileza diga a eles que prefiro não ser chamada de Scream Queen", e então dou uma breve explicação com uma versão do tweet que eu enviei na terça-feira.


A reação que recebi do público, ao revelar o meu desprezo pelo termo, foi esmagadora, provocando concordância, iluminação e, ocasionalmente, indignação e desconsideração. Os meus links do Twitter e do Facebook encheram e até na manhã seguinte eu acordei com centenas de curtidas, opiniões e comentários. Estou feliz que provocou uma discussão. Como "Kevin", isso é claramente algo de que precisamos falar. Eu senti que esta conversa precisava de um fórum maior, então aqui estão alguns pensamentos adicionais sobre o assunto, junto com comentários de pessoas da comunidade de terror. Muito obrigado a Meredith Borders que me contatou solicitando um discurso mais amplo. 

O conceito de donzelas em perigo gritando existe desde o início do cinema, com Os Perigos de Pauline (1914) e Fay Wray clamando em King Kong (1933), mas foi só meio século depois que as protagonistas femininas do cinema de terror receberam o apelido de Scream Queens. A estrela de A Última Casa À Esquerda, Sandra Peabody, foi uma das primeiras atrizes a ter o título oficialmente conferido a ela depois de aparecer no clássico de Wes Craven de 1972, mas foi no início dos anos 80, quando a então ingênua Jamie Lee Curtis estrelou em impressionantes cinco filmes de terror, ao longo de dois anos, que o termo atingiu o mainstream. 


Scream Queen, que, quase da noite para o dia, se tornou um termo intensamente popular, foi mais tarde concedido a incontáveis estrelas durante os anos 80 (incluindo eu mesma). No início dos anos 90, o termo ganhou força, com filmes irônicos como o Scream Queen Hot Tub Party de 1991. Dominando prateleiras de lojas de vídeo. Craven, que, como foi dito, ajudou a criar a primeira Scream Queen do terror moderno, divertiu-se magistralmente com o conceito - e com os clichês de filmes de terror em geral - com o seu Pânico de 1996, mas fez isso sem tentar transformar a estrela Neve Campbell em outra coisa que não uma heroína durona. E enquanto Campbell aparecia em Jovens Bruxas no mesmo ano - e voltava para as três sequências de Pânico - a força e o foco dos personagens que ela interpretava (assim como o fato de ela não ter passado os filmes apenas gritando) realmente não prova que ela seja o que o título implica. Independentemente disso, ela recebeu o título de Scream Queen em inúmeras listas e artigos.

E qual a razão disso? É uma frase cativante e um título excitante, mas faz pouco para tornar lúcidas as muitas nuances que um ator atravessa nos filmes de terror modernos. Como meu amigo Alan Cerny afirmou, "é redutivo". Eu poderia falar sobre as performances com camadas profundas de muitos de meus pares jovens e velhos que trabalharam muito duro em seus papéis e nos deixaram com uma profunda experiência cinematográfica para as quais voltamos várias vezes: Heather Langenkamp em A Hora do Pesadelo, Jessica Harper em Suspiria, Tippi Hedren em Os Pássaros, Marilyn Burns em O Massacre da Serra Elétrica, Lin Shaye em Sobrenatural, Essie Davis em O Babadook, Alex Essoe em Starry Eyes, Sharni Vinson em Você É O Próximo e, claro, Jamie Lee Curtis em Halloween ... a lista é longa. 

Esse apelido de Scream Queen é limitante na descrição e também limita sua capacidade de revelar que essas atrizes são mais do que a soma da tensão de suas cordas vocais. Para muitos, como eu, cimentou uma carreira em um gênero adorado, mas para alguns também reduziu os papéis que são oferecidos em outros gêneros, tendo sido rotulados para um tipo de filme. Deixe-me compartilhar com você o que eu disse ao produtor Travis Stevens enquanto trabalhava em Ainda Estamos Aqui: "Um personagem não sabe que está em um filme de terror. Como personagem, eu recebo certo conjunto de experiências para viver em um filme e tento fazer isso com o máximo de autenticidade possível”. Raiva, saudade, amor e medo são aspectos de muitas situações na vida e em todos os gêneros. 


Seguindo em frente, foi na revolução digital do início dos anos 2000, que o termo assumiu uma nova forma. De repente, as novas atrizes estavam ganhando o título após aparecerem em um ou dois filmes de terror - com jovens talentos ocasionais chegando a usar o título como um gancho antes de aparecer em qualquer coisa! Para receber essa distinção, as atrizes tiveram que aprender muito para chegar à comunidade do horror. De repente, era um título que qualquer um poderia reivindicar.

Mas, assim como a realeza atual, você não pode se considerar um rei ou uma rainha e esperar uma reverência instantânea. É um termo que é concedido a você. 
Enquanto a série de televisão da FOX do mesmo nome continua a saturar o termo, vamos tirar um momento para conceitua-lo. Ser uma Scream Queen implica que você é boa em duas coisas: gritar com todo o ar dos seus pulmões e ser uma mulher. Simplesmente ser reconhecido como um ator decente que por acaso ama filmes do gênero é muito mais satisfatório e muito menos condescendente. 

Quando eu entrei no mundo do gênero com o Re-Animator de 1985, eu não tinha intenção de me tornar um dos pilares da cena. Mas depois de mais dois filmes de terror no ano seguinte, eu me vi como uma Scream Queen. Claro, Megan Halsey passa bastante tempo gritando com Dan Cain, Herbert West e “Daddy” depois que ele se tornou um "peão zumbi" do louco Dr. West, e eu gemia e tremia um pouco em Do Além e gritei no Chopping Mall. Claro, eu estava lutando contra um zumbi sem cabeça, uma criatura fálica do além e robôs equipados com laser, mas eu era uma atriz, e doía me diminuir, restringir-me a um título como esse, simplesmente porque eu abraçava o terror ou minha própria sexualidade. 


Quando Ted Geoghegan me abordou sobre sua estreia na direção de 2015, com Ainda Estamos Aqui, ele fez isso como um fã - como alguém que admitiu abertamente ter crescido chocado com "aquela cena" do Re-Animator. "Ver Castle Freak como um garoto de 16 anos de olhos arregalados", ele admitiu para mim, "ajudou-me a compreender completamente que os atores são mais do que seus papéis. Claro, você já interpretou uma grande Scream Queen uma década atrás, mas seu papel em Castle Freak como uma mãe forte e focada, indestrutível, me fez ver o confinamento dos rótulos cinematográficos. Eu não queria que uma Scream Queen interpretasse Anne em Ainda Estamos Aqui. Eu queria uma atriz”.

Têm sido oferecidos a mim alguns papéis fantásticos nesta segunda rodada da minha carreira, desde que voltei com Você É O Próximo em 2011: uma mãe de coração pesado lamentando a perda de um filho, uma zeladora sádica e não auto-reflexiva, uma mulher americana escondendo um segredo mortal que mora na França, uma apresentadora de videogame VCR, uma Madre Superiora ... e mais está por vir . Eu gostaria de acreditar que sou mais do que uma “estudante tola”, como Herbert West me chamou, e eu sei que meus amigos e atrizes do ramo estão fazendo um bom trabalho nesta nova onda dos filmes do gênero, filmes que são mais naturalistas, mas que ainda evocam sentimentos profundos e revelam paixão, medo e amor combinados.

Eles possuem habilidades que levaram anos para desenvolver e aperfeiçoar.

Uma vez que há alguns que não se importam com este título ou o usam com orgulho, eu digo, vá em frente e se refira a si mesmo como quiser. Para mim, prefiro não ser rotulada, encaixotada, marcada ou reduzida a um termo que considero ultrapassado e antiquado, limitante e, sim, grosseiro. 

Então, por favor...

Não me chame de Scream Queen. 

 Texto Original Aqui

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O subgênero found footage ainda que saturado, pode reservar boas surpresas ou ao menos alguns filmes competentes, basta ir sem muita expectativa e conhecendo os maneirismos do estilo. De vez em quando uma produção consegue se sobressair e fazer algo decente.

A Maldição da Freira é um filme deste ano (lançado em 2018, só chegou no Brasil em 2019), dirigido pela irlandesa Aisllin Clarke, que tem experiência com curtas de terror e a usa para fazer um bom found footage.

No ano de 1960 dois padres são enviados pelo Vaticano para avaliar um possível milagre num lar de “mulheres perdidas” (órfãs, doentes mentais, grávidas solteiras e tudo que fosse considerado fora do normal na época) na Irlanda. O padre mais velho, Thomas (Lalor Roddy, meigo e bom), é cético sobre o suposto milagre de uma santa que chora sangue. Seu assistente, padre John (Ciaran Fllyn, o mais fraco no elenco) é o responsável por registrar a pesquisa e é mais crente na verdade por trás do evento. O lar é administrado pela Madre Superiora Agnes (Helena Bereen, assustadora e ótima), com mão de ferro e impiedosa, ela parece ser o verdadeiro mal que reina no lar.


Conforme os dias se passam, os padres descobrem os segredos perturbadores e sujos do lugar, que incluem uma jovem (Lauren Coe) presa num porão sob uma provável possessão demoníaca e a ligação das jovens do lugar com indiscrições de padres. Isso foi o que chamou mais minha atenção na obra.

Clarke escreveu uma história que funciona também como um drama de denúncia da Igreja Católica e suas práticas misóginas. Tudo isso encarnado na figura da Madre Superiora, em suas falas, a mulher deixa claro que o lugar que cuida nem deveria existir se não fossem os pecados dos homens da Igreja. As moças que vão até lá, grávidas e expulsas de casa, se “perderam” por padres católicos e foram deixadas à própria sorte. As crianças mortas, abandonadas ou abortadas são fruto do desvio desses padres. Desvio que pesa sobre o futuro dessas mulheres e da própria Agnes.

O ponto é claro: o Mal que se infiltrou no abrigo, se originou do pecado dos homens ao usarem essas mulheres e depois joga-las para baixo do tapete. Alguém tinha que tomar uma providência enérgica, já que a fé cristã não ajudava talvez alguma outra entidade atendesse essa necessidade.


Tudo poderia ser melhor usado em outro formato, no found footage a interessante trama divide tempo com jump scares e situações de confusão com câmera tremendo, ainda que muitos sustos funcionem, eu imagino o que Clarke conseguiria ter feito num outro tipo de filme.

As imagens que ela evoca são perturbadoras o bastante para despertar interesse, o clima é pesado e sombrio. O ritmo da trama se perde um pouco no final, derretendo o foco do espectador, mas no fim das contas é um bom found footage e tem uma história importante pra contar, mesmo que não chegue a ser inesquecível.
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Estreou no serviço de streaming da Amazon no ano passado a série de comédia The Tick (ou O Tick em português), remake de uma sitcom de mesmo nome dos anos 2000, que por sua vez adaptava os quadrinhos. Discreta, não foi alvo de muita atenção o que é uma tremenda pena.

A série é uma sátira/homenagem ao universo dos super-heróis, muito engraçada e divertida que merecia mais holofote dos fãs de quadrinhos.

No universo de O Tick, os supers já são elementos do cotidiano se incorporando a vida social como é possível. O mais notável deles é o Superian, um alienígena humanoide que se responsabilizou em proteger a Terra (oi, Superman?), e é um verdadeiro ícone mundial.

Seu arqui-inimigo é O Terror (Jacky Early Hailey, sempre excelente), vilão megalomaníaco super malvado e cheio de planos mirabolantes. Numa das tentativas do sujeito de acabar com a equipe de heróis "Os Super 5", ele ataca a nave deles que acaba caindo em cima de um homem comum, um transeunte qualquer.

A questão é que esse homem estava com o filho em uma sorveteria. Artur, a criança testemunha o evento e cria um ódio mortal ao Terror. Eventualmente, o Superian mata o Terror em uma luta e durante anos ninguém ouve falar no vilão.

Artur (Griffin Newman) já um adulto, cheio de complexos, ainda não se convenceu da morte do Terror e continua investigando as atividades obscuras da cidade. Especialmente a gangue do Ramsés, que tem como aliada a antiga braço direito do Terror, a Dona Poeira (Yara Martinez, uma das melhores coisas da série). A vilã tem pulseiras de energia ligadas ao seu sistema nervoso que a deixam perigosa e também magnética para partículas de pó, vem daí o seu nome.




Numa vigilância noturna, Artur encontra um sujeito vestido de azul e superpoderoso que se chama de O Tick (Peter Serafinowicz, irritantemente adorável ou adoravelmente irritante). O Tick é um herói das antigas, totalmente virtuoso e moral, numa linha bastante maniqueísta, diga-se de passagem.

Cheio de discursos e ênfases heroicas, o Tick ajuda Artur em sua tocaia e ataca a gangue de Ramsés pegando um traje tecnológico que os vilões queriam e matando muita gente numa explosão acidental. Artur vê tudo, mas duvida da própria sanidade.

Dot, a irmã de Artur é socorrista e ela mesma tem seus contatos com o submundo, curando os lacaios feridos dos chefões do crime. Ela se preocupa muito com o irmão e seu possível delírio com um super-herói azul. No fim, ela descobre que o Tick é bem real e que seu irmão está com problemas sérios e ela resolve ajuda-lo.

A série se apoia bem na relação entre Artur e o Tick, na amizade meiga que desenvolvem e como isso é importante para os dois. Os atores estão muito bem juntos e é fácil gostar deles logo de cara. Através do Tick, Artur vai encontrar espaço para superar os seus medos e traumas e ser tornar ele mesmo, um herói.



A medida em que a história se desenrola mais personagens são incluídos: o Escracho (Scott Speiser) um misto de Batman com Justiceiro, com Homem de Ferro, seu companheiro de inteligência artificial Navigator, muito sarcástico e totalmente apaixonado por Artur. Norman, o padrasto excêntrico de Artur que talvez seja mais interessante do que o esperado. E temos até um cachorro herói aposentado, autor de um livro de memórias meio autoajuda. Cada personagem é uma homenagem ao universo de quadrinhos da Era de Ouro e Prata dos heróis.

Os efeitos especiais estão bons e o elenco é um primor. É aquele tipo de show pra maratonar e ficar querendo mais (o trailer da segunda temporada saiu há algumas semanas e está perfeito). É impossível não gostar dos personagens, heróis ou vilões. Se uma palavra definisse essa série, seria adorável.

No fim, O Tick resgata uma inocência esquecida para as produções de supers dos últimos anos, nos lembrando porque gostamos tanto de ver sujeitos em roupas extravagantes que se importam com as vidas de pessoas que sequer conhecem. Mesmo nós tendo boas produções audiovisuais de quadrinhos a cada ano, fazia muito tempo que eu não sorria ao assistir uma e me orgulhava tanto de ser uma leitora de HQ’s. Que venha a segunda temporada!
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