Barbara Crampton: Não Me Chame De “Scream Queen” (Tradução do original no site Birth.Movies.Death)

by - abril 25, 2019


Há muitos anos venho dizendo aos publicitários dos filmes em que eu participo: "Quando você marcar a entrevista com o jornalista, por gentileza diga a eles que prefiro não ser chamada de Scream Queen", e então dou uma breve explicação com uma versão do tweet que eu enviei na terça-feira.


A reação que recebi do público, ao revelar o meu desprezo pelo termo, foi esmagadora, provocando concordância, iluminação e, ocasionalmente, indignação e desconsideração. Os meus links do Twitter e do Facebook encheram e até na manhã seguinte eu acordei com centenas de curtidas, opiniões e comentários. Estou feliz que provocou uma discussão. Como "Kevin", isso é claramente algo de que precisamos falar. Eu senti que esta conversa precisava de um fórum maior, então aqui estão alguns pensamentos adicionais sobre o assunto, junto com comentários de pessoas da comunidade de terror. Muito obrigado a Meredith Borders que me contatou solicitando um discurso mais amplo. 

O conceito de donzelas em perigo gritando existe desde o início do cinema, com Os Perigos de Pauline (1914) e Fay Wray clamando em King Kong (1933), mas foi só meio século depois que as protagonistas femininas do cinema de terror receberam o apelido de Scream Queens. A estrela de A Última Casa À Esquerda, Sandra Peabody, foi uma das primeiras atrizes a ter o título oficialmente conferido a ela depois de aparecer no clássico de Wes Craven de 1972, mas foi no início dos anos 80, quando a então ingênua Jamie Lee Curtis estrelou em impressionantes cinco filmes de terror, ao longo de dois anos, que o termo atingiu o mainstream. 


Scream Queen, que, quase da noite para o dia, se tornou um termo intensamente popular, foi mais tarde concedido a incontáveis estrelas durante os anos 80 (incluindo eu mesma). No início dos anos 90, o termo ganhou força, com filmes irônicos como o Scream Queen Hot Tub Party de 1991. Dominando prateleiras de lojas de vídeo. Craven, que, como foi dito, ajudou a criar a primeira Scream Queen do terror moderno, divertiu-se magistralmente com o conceito - e com os clichês de filmes de terror em geral - com o seu Pânico de 1996, mas fez isso sem tentar transformar a estrela Neve Campbell em outra coisa que não uma heroína durona. E enquanto Campbell aparecia em Jovens Bruxas no mesmo ano - e voltava para as três sequências de Pânico - a força e o foco dos personagens que ela interpretava (assim como o fato de ela não ter passado os filmes apenas gritando) realmente não prova que ela seja o que o título implica. Independentemente disso, ela recebeu o título de Scream Queen em inúmeras listas e artigos.

E qual a razão disso? É uma frase cativante e um título excitante, mas faz pouco para tornar lúcidas as muitas nuances que um ator atravessa nos filmes de terror modernos. Como meu amigo Alan Cerny afirmou, "é redutivo". Eu poderia falar sobre as performances com camadas profundas de muitos de meus pares jovens e velhos que trabalharam muito duro em seus papéis e nos deixaram com uma profunda experiência cinematográfica para as quais voltamos várias vezes: Heather Langenkamp em A Hora do Pesadelo, Jessica Harper em Suspiria, Tippi Hedren em Os Pássaros, Marilyn Burns em O Massacre da Serra Elétrica, Lin Shaye em Sobrenatural, Essie Davis em O Babadook, Alex Essoe em Starry Eyes, Sharni Vinson em Você É O Próximo e, claro, Jamie Lee Curtis em Halloween ... a lista é longa. 

Esse apelido de Scream Queen é limitante na descrição e também limita sua capacidade de revelar que essas atrizes são mais do que a soma da tensão de suas cordas vocais. Para muitos, como eu, cimentou uma carreira em um gênero adorado, mas para alguns também reduziu os papéis que são oferecidos em outros gêneros, tendo sido rotulados para um tipo de filme. Deixe-me compartilhar com você o que eu disse ao produtor Travis Stevens enquanto trabalhava em Ainda Estamos Aqui: "Um personagem não sabe que está em um filme de terror. Como personagem, eu recebo certo conjunto de experiências para viver em um filme e tento fazer isso com o máximo de autenticidade possível”. Raiva, saudade, amor e medo são aspectos de muitas situações na vida e em todos os gêneros. 


Seguindo em frente, foi na revolução digital do início dos anos 2000, que o termo assumiu uma nova forma. De repente, as novas atrizes estavam ganhando o título após aparecerem em um ou dois filmes de terror - com jovens talentos ocasionais chegando a usar o título como um gancho antes de aparecer em qualquer coisa! Para receber essa distinção, as atrizes tiveram que aprender muito para chegar à comunidade do horror. De repente, era um título que qualquer um poderia reivindicar.

Mas, assim como a realeza atual, você não pode se considerar um rei ou uma rainha e esperar uma reverência instantânea. É um termo que é concedido a você. 
Enquanto a série de televisão da FOX do mesmo nome continua a saturar o termo, vamos tirar um momento para conceitua-lo. Ser uma Scream Queen implica que você é boa em duas coisas: gritar com todo o ar dos seus pulmões e ser uma mulher. Simplesmente ser reconhecido como um ator decente que por acaso ama filmes do gênero é muito mais satisfatório e muito menos condescendente. 

Quando eu entrei no mundo do gênero com o Re-Animator de 1985, eu não tinha intenção de me tornar um dos pilares da cena. Mas depois de mais dois filmes de terror no ano seguinte, eu me vi como uma Scream Queen. Claro, Megan Halsey passa bastante tempo gritando com Dan Cain, Herbert West e “Daddy” depois que ele se tornou um "peão zumbi" do louco Dr. West, e eu gemia e tremia um pouco em Do Além e gritei no Chopping Mall. Claro, eu estava lutando contra um zumbi sem cabeça, uma criatura fálica do além e robôs equipados com laser, mas eu era uma atriz, e doía me diminuir, restringir-me a um título como esse, simplesmente porque eu abraçava o terror ou minha própria sexualidade. 


Quando Ted Geoghegan me abordou sobre sua estreia na direção de 2015, com Ainda Estamos Aqui, ele fez isso como um fã - como alguém que admitiu abertamente ter crescido chocado com "aquela cena" do Re-Animator. "Ver Castle Freak como um garoto de 16 anos de olhos arregalados", ele admitiu para mim, "ajudou-me a compreender completamente que os atores são mais do que seus papéis. Claro, você já interpretou uma grande Scream Queen uma década atrás, mas seu papel em Castle Freak como uma mãe forte e focada, indestrutível, me fez ver o confinamento dos rótulos cinematográficos. Eu não queria que uma Scream Queen interpretasse Anne em Ainda Estamos Aqui. Eu queria uma atriz”.

Têm sido oferecidos a mim alguns papéis fantásticos nesta segunda rodada da minha carreira, desde que voltei com Você É O Próximo em 2011: uma mãe de coração pesado lamentando a perda de um filho, uma zeladora sádica e não auto-reflexiva, uma mulher americana escondendo um segredo mortal que mora na França, uma apresentadora de videogame VCR, uma Madre Superiora ... e mais está por vir . Eu gostaria de acreditar que sou mais do que uma “estudante tola”, como Herbert West me chamou, e eu sei que meus amigos e atrizes do ramo estão fazendo um bom trabalho nesta nova onda dos filmes do gênero, filmes que são mais naturalistas, mas que ainda evocam sentimentos profundos e revelam paixão, medo e amor combinados.

Eles possuem habilidades que levaram anos para desenvolver e aperfeiçoar.

Uma vez que há alguns que não se importam com este título ou o usam com orgulho, eu digo, vá em frente e se refira a si mesmo como quiser. Para mim, prefiro não ser rotulada, encaixotada, marcada ou reduzida a um termo que considero ultrapassado e antiquado, limitante e, sim, grosseiro. 

Então, por favor...

Não me chame de Scream Queen. 


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