Tecnologia do Blogger.
ARQUIVO MALDITO

Obrigada a todos os espécimes do homus nerdus punheteirus, por me fazerem contrapor dois filmes protagonizados por mulheres. Sério, estou muito grata.

1.      Uma Emancipação Incômoda:

Aves de Rapina foi lançado em fevereiro de 2020 já causando muito alvoroço, boa parte porque o público masculino caiu matando no discurso explicitamente feminista da produção. Com o passar dos meses, por conta do meu vício masoquista em ler comentários nas redes sociais passei a perceber que sempre que aparecia uma postagem aleatória sobre o filme estrelando Arlequina e companhia, havia um conjunto de “nerdes” falando que o filme era uma bosta feminista lacradora e que Alita: Anjo de Combate se saía muito melhor, como se fosse possível uma comparação justa entre ambos os filmes.

Isso me fez questionar: por que os alguns homens gostaram tanto de Alita e odiaram Aves de Rapina? É bastante curioso porque eu não me lembro da personagem de Margot Robbie ter despertado tamanha aversão quando apareceu em Esquadrão Suicida, na verdade muita gente concordava que ela era um dos pontos altos do filme.  Entre um filme e outro alguma coisa mudou, mas o que?

2.      A Protagonista Ideal dos Homens:

Percorrendo sites de crítica cinematográfica, não é preciso ir muito longe para ver a defesa quase unânime de Alita por parte do público masculino.  Alita é fofa, adorável, badass, bonita e tem cintura fina. Alita nunca reclama, Alita gosta dos homens ao seu redor, Alita não é desagradável, nunca parece ter vontade própria ou se expressar de forma que vá contra a vontade dos personagens masculinos. Ela literalmente se dá a eles.

Aposto que esse cara nem sequer leu o texto da Cohen, só viu e título e criticou.



Bom, o problema não é só a armadura da Alita.


Tem tanta coisa errada nesse comentário que eu nem vou pontuar, mas já dá pra ter uma noção do tipo de cara que gosta da Alita.

Sendo dirigido pelo fetichista cheio de estilo Robert Rodriguez, que não é um modelo de diretor cuidadoso quando se trata de boa representação feminina, o filme só faz repetir seus vícios ao retratar mulheres (um exemplo é a cena totalmente gratuita da personagem de Jennifer Connely aparecendo de lingerie, mesmo Alita tendo baixa classificação indicativa).

Por que a gente precisava ver essa personagem de cinta-liga?

Alita é a Nancy Callahan de Sin City, uma linda jovem (quase que acidentalmente sexy) meio ingênua, mas que sabe chutar umas bundas quando precisa. E os nerdes adoram esse tipo. Não é à toa que muitas críticas feministas não saíram adulando o filme produzido por James Cameron (envolto na polêmica “mais feminista do que eu, Patty Jenkins?”) como os homens fizeram, uma crítica boa do filme é a de Anne Cohen. A única coisa que salva esse protótipo de filme de ação é o talento e o carisma de Rosa Salazar.

Alita é o protótipo vivo do "Nasci sexy ontem"

Talvez seja tudo por pura birra, se as “feminazis da lacrosfera” odiaram eu tenho que amar, se elas amam então eu preciso odiar.
Assim como a Arlequina de Esquadrão Suicida (badass, mas sexy e maluquinha), Alita é a mulher heroína idealizada. Seja forte e determinada, mas não a ponto de incomodar os homens à sua volta.  Enquanto Arlequina era uma bonequinha, todos a amavam, mas quando essa bonequinha saiu andando por aí com suas próprias pernas e levantando sua voz, deixou de ser a queridinha deles.

3.      Baby, Se Eu Tivesse Que Escolher, Seria a Arlequina:

Talvez eu só queira ver o circo pegar fogo...

Mesmo tendo meus problemas com o cinema da DC (principalmente pela influência do Snyderverso), as últimas produções da Warner tem sido bastante satisfatórias. Navegando por estilos e gêneros diversos, parece que finalmente a produtora está encontrando seu caminho. Então, quando Aves de Rapina foi anunciado eu criei uma certa expectativa, que só foi reforçada ao saber que a crítica especializada teceu vários elogios à produção.

Não é que seja um filme perfeito (nem mesmo Alita é), mas ele sabe usar bem seus pontos fortes. A direção de Cathy Ian é estilosa e traz um ar refrescante às produções de quadrinhos atuais.

Aves de Rapina tem ritmo, boas personagens, excelentes cenas de ação, uma trilha sonora que é bem mais do que decorativa, vilões bacanas e tiradas de humor que funcionam sempre (sim Deadpool, essa foi pra você). De todas as produções recentes da Warner/DC é a minha favorita, não só por ser uma boa comédia de ação, mas por ter um discurso claro e objetivo que vai durar.

Dando uma rasteira nos machistas!

Aves de Rapina é um filme feito por mulheres e denuncia situações comuns a todas elas, mesmo que o universo da película seja fantástico. Machismo no ambiente trabalho, etarismo, sexualização, abuso sexual e tomada de consciência de suas capacidades são alguns dos pontos levantados por ele.

Se você é homem provavelmente não sabe como é sentir tudo isso, mas se você consegue empatizar com um príncipe aquático buscando uma reconexão com Atlântida, você é capaz de simpatizar com mulheres buscando libertação, algo muito mais crível. Se você não consegue, provavelmente é porque não quer, se você não quer é porque muito provavelmente você prefere mulheres que estejam num filme para serem suas namoradas imaginárias e não para denunciarem seus comportamentos sexistas (ou de seus conhecidos).

Homens preferem ver uma Alita porque isso é confortável, mas a Arlequina e as Aves de Rapina cutucam demais a ferida e vão na contramão do que eles esperam ver quando se trata de mulher. Uma coisa eu posso garantir: Alita será esquecida com seu tom aguado, mas a Emancipação Fantabulosa ainda trará muita discussão. Nada mais justo, já que elas são bem mais corajosas.


Share
Tweet
Pin
Share
No comentários


Estreou no serviço de streaming da Amazon no ano passado a série de comédia The Tick (ou O Tick em português), remake de uma sitcom de mesmo nome dos anos 2000, que por sua vez adaptava os quadrinhos. Discreta, não foi alvo de muita atenção o que é uma tremenda pena.

A série é uma sátira/homenagem ao universo dos super-heróis, muito engraçada e divertida que merecia mais holofote dos fãs de quadrinhos.

No universo de O Tick, os supers já são elementos do cotidiano se incorporando a vida social como é possível. O mais notável deles é o Superian, um alienígena humanoide que se responsabilizou em proteger a Terra (oi, Superman?), e é um verdadeiro ícone mundial.

Seu arqui-inimigo é O Terror (Jacky Early Hailey, sempre excelente), vilão megalomaníaco super malvado e cheio de planos mirabolantes. Numa das tentativas do sujeito de acabar com a equipe de heróis "Os Super 5", ele ataca a nave deles que acaba caindo em cima de um homem comum, um transeunte qualquer.

A questão é que esse homem estava com o filho em uma sorveteria. Artur, a criança testemunha o evento e cria um ódio mortal ao Terror. Eventualmente, o Superian mata o Terror em uma luta e durante anos ninguém ouve falar no vilão.

Artur (Griffin Newman) já um adulto, cheio de complexos, ainda não se convenceu da morte do Terror e continua investigando as atividades obscuras da cidade. Especialmente a gangue do Ramsés, que tem como aliada a antiga braço direito do Terror, a Dona Poeira (Yara Martinez, uma das melhores coisas da série). A vilã tem pulseiras de energia ligadas ao seu sistema nervoso que a deixam perigosa e também magnética para partículas de pó, vem daí o seu nome.




Numa vigilância noturna, Artur encontra um sujeito vestido de azul e superpoderoso que se chama de O Tick (Peter Serafinowicz, irritantemente adorável ou adoravelmente irritante). O Tick é um herói das antigas, totalmente virtuoso e moral, numa linha bastante maniqueísta, diga-se de passagem.

Cheio de discursos e ênfases heroicas, o Tick ajuda Artur em sua tocaia e ataca a gangue de Ramsés pegando um traje tecnológico que os vilões queriam e matando muita gente numa explosão acidental. Artur vê tudo, mas duvida da própria sanidade.

Dot, a irmã de Artur é socorrista e ela mesma tem seus contatos com o submundo, curando os lacaios feridos dos chefões do crime. Ela se preocupa muito com o irmão e seu possível delírio com um super-herói azul. No fim, ela descobre que o Tick é bem real e que seu irmão está com problemas sérios e ela resolve ajuda-lo.

A série se apoia bem na relação entre Artur e o Tick, na amizade meiga que desenvolvem e como isso é importante para os dois. Os atores estão muito bem juntos e é fácil gostar deles logo de cara. Através do Tick, Artur vai encontrar espaço para superar os seus medos e traumas e ser tornar ele mesmo, um herói.



A medida em que a história se desenrola mais personagens são incluídos: o Escracho (Scott Speiser) um misto de Batman com Justiceiro, com Homem de Ferro, seu companheiro de inteligência artificial Navigator, muito sarcástico e totalmente apaixonado por Artur. Norman, o padrasto excêntrico de Artur que talvez seja mais interessante do que o esperado. E temos até um cachorro herói aposentado, autor de um livro de memórias meio autoajuda. Cada personagem é uma homenagem ao universo de quadrinhos da Era de Ouro e Prata dos heróis.

Os efeitos especiais estão bons e o elenco é um primor. É aquele tipo de show pra maratonar e ficar querendo mais (o trailer da segunda temporada saiu há algumas semanas e está perfeito). É impossível não gostar dos personagens, heróis ou vilões. Se uma palavra definisse essa série, seria adorável.

No fim, O Tick resgata uma inocência esquecida para as produções de supers dos últimos anos, nos lembrando porque gostamos tanto de ver sujeitos em roupas extravagantes que se importam com as vidas de pessoas que sequer conhecem. Mesmo nós tendo boas produções audiovisuais de quadrinhos a cada ano, fazia muito tempo que eu não sorria ao assistir uma e me orgulhava tanto de ser uma leitora de HQ’s. Que venha a segunda temporada!
Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Older Posts

Páginas

  • Filmes e Séries
  • AM Podcast
  • Literatura

Posts Recentes

SIGA O AM

  • instagram
  • Spotify
  • YouTube

Arquivo do AM

  • abril 2023 (1)
  • janeiro 2023 (1)
  • janeiro 2022 (1)
  • dezembro 2021 (1)
  • janeiro 2021 (3)
  • novembro 2020 (6)
  • junho 2020 (2)
  • maio 2020 (3)
  • abril 2020 (2)
  • março 2020 (4)
  • fevereiro 2020 (2)
  • janeiro 2020 (1)
  • setembro 2019 (1)
  • agosto 2019 (1)
  • julho 2019 (1)
  • junho 2019 (2)
  • maio 2019 (8)
  • abril 2019 (14)
  • fevereiro 2019 (1)
  • novembro 2018 (2)
  • outubro 2018 (1)
  • setembro 2018 (1)
  • agosto 2018 (1)
  • junho 2018 (1)
  • maio 2018 (1)
  • abril 2018 (1)
  • março 2018 (1)

SOBRE O AM

O Arquivo Maldito nasceu com a intenção de analisar o mundo do terror (e da cultura pop em geral) com um olhar social e problematizador.

Marcadores

Filmes e Séries Terror Feminismo Representatividade Terror Indie Mulheres Literatura Clive Barker Colírios do Creepshow Abuso Amazon Prime Blumhouse Drag Me To Hell AJ.Bowen Antologia Arraste-me Para o Inferno Ash vs Evil Dead Bruxas Channel Zero Cultos Found Footage Frankenstein's Army Hellraiser Heróis Homofobia Hulu Into The Dark Junji Ito Livro Mangás Noroi Operação Overlord Raça das Trevas Sam Raimi A Horrible Way To Die Alfred Hitchcock Amy Seimetz Anos 80 Assassination Nation CW Charmed Digging Up The Marrow Fear Inc Gyo HBO Happy Hellstar Remina Lovecraft Ma no Kakera Mindy McGinnis Mãe! Neil Gaiman O Sinal Os Demônios de Dorothy Mills Procura-se Uma Babá Pânico Reboot Sandman Scream Sidney Prescott Southbound The Girl The Invitation The Shrine The Void Tick Timeless Uzumaki Você É O Próximo

Created with by ThemeXpose