Em 3 Dias Christine Brown Vai Para o Inferno: Subversões em Arraste-me Para O Inferno

by - abril 29, 2019



Em 2009, Sam Raimi saiu do hiato enorme e lançou um novo filme de terror: Arraste-me Para o Inferno. A promessa era de retornar às origens e isso ele fez muito bem, me lembro de que quando vi o filme eu morri de medo, na época a união de humor e horror fazia tudo parecer mais assustador pra mim (talvez ainda faça).

Olhando para o filme em 2019, eu percebo o quão ele é esperto e brinca com as convenções do gênero de filmes demoníacos e com as nossas expectativas, o que parece ser algo de que Sam Raimi gosta bastante. Vamos analisar o filme mais de perto para entender como Raimi enxerga os heróis de seus filmes bem como a temática do sucesso e fracasso em suas narrativas.




1. Os Heróis Nada Heróicos de Raimi:

Em 1981, Raimi lançou o primeiro filme de uma trilogia que mudaria o cinema de terror: The Evil Dead: A Morte do Demônio ou Uma Noite Alucinante. A combinação maluca de comédia e terror gore daria muito certo e colocaria Raimi no hall da fama do horror. Seu protagonista, Ash Williams (interpretado de forma brilhante e magnífica por Bruce Campbell), no entanto, não era bem o típico herói de filme de terror que se tinha até então. Ash é desagradável, burro, inconsequente, imaturo e só faz merda, não tem praticamente nenhuma virtude louvável que nos inspire e cause admiração.

Mais adiante, em 2001, temos o Peter Parker de Raimi. O Peter de Tobey Maguire é um perdedor, até demais da conta (e por isso mesmo, o melhor de todos), só que muita gente se sente desconfortável com ele exatamente por essa razão. Para deixar mais claro vejam esse vídeo do Tralhas do Jon. Ele não é o herói machão viril que muitos desejavam que fosse.




2. A Rainha dos Porcos:

Sendo assim, chegamos na “heroína” de Arraste-me Para o Inferno: Christine Brown (Alison Lohman). Christine é uma moça do interior que fez carreira na cidade grande, conseguiu um namorado legal e bem de vida e tem uma possível promoção no banco em que trabalha batendo na porta dela. Pressionada por um chefe que não a leva a sério e um concorrente puxa saco, Christine faz uma coisa totalmente imoral.

Numa tarde, ela atende a velha cigana Sylvia Ganush (Lorna Raver). A mulher tem um olho cego, tosse catarro num lenço e não é nem um pouco o retrato de velhinha fofa que desperta simpatia. Mesmo assim, ainda era só uma senhora à beira de perder a própria casa para um banco ricaço.

De olho na promoção, Christine nega a extensão do prazo de Ganush fazendo a mulher implorar por uma chance a mais na frente de todos. A cena é desconfortável de ver. Pausa para uma memória de Homem-Aranha: lembram-se da cena em que a tia May e o Peter vão até o banco resolver uma questão de empréstimo e a pobre May é humilhada pelo funcionário que os atende? Aqui nós temos a situação ao contrário, mais ou menos. A intenção é a mesma, despertar nossa compaixão.

Christine lendo a sorte com Ram Jas.

Christine Brown é apresentada como uma jovem ambiciosa e egoísta, que passa em cima da moral para conseguir o que quer (assim como os bancos são, hhmmm). Brown é então amaldiçoada por Ganush, em três dias o demônio Lâmia vai buscar sua alma e leva-la para o Inferno.

Depois da primeira aparição do demônio, Christine faz de tudo para se salvar (até mata um filhote de gatinho, mesmo sendo defensora dos animais e etc). A cada investida nós vemos a pressão e o sofrimento de Christine, mas a nossa simpatia por ela é ambígua. Isso é uma coisa ótima, principalmente porque ela é uma protagonista mulher. É coisa raríssima que mulheres de moral duvidosa sejam as protagonistas dos filmes, sempre reforçam que as mulheres são seres angelicais, meigos e bondosos, sempre fazendo o que é ético. Ver uma protagonista como Christine é uma subversão maravilhosa para o cinema de terror, mesmo que seja natural para Raimi imagina-la assim.




3. O Fracasso e Um Final Feliz?

O tema do fracasso é algo que Raimi aprecia bastante. Seu Ash Williams tinha a missão de lembrar 3 palavrinhas e salvar o mundo, ele falha. Onde ele tem a chance de acertar, ele erra. Mesmo que no fim ele conserte as coisas, o erro foi dele só para começar.

O Peter de Raimi é, como eu disse, um fracassado. Tá sempre se ferrando em tudo, como o filme é de outro gênero há os momentos de brilho, obviamente, mas ele sempre deixa que Peter experimente uma vitória amarga, nunca a doce glória.

O tema do herói que tenta, tenta e tenta, mas não consegue é familiar para o diretor. Não é diferente com Christine Brown. Mesmo atravessando várias situações ruins e se esforçando muito para se salvar, ela comete um erro. Um de vários durante o filme. E vai para o inferno.

Pouco antes de morrer, Christine admite que tinha a escolha de não expulsar Ganush da própria casa, mas o fez. Sendo assim, será mesmo que o seu final não foi justo?

Tomando um banho de lama com a senhora Ganush.

A trama do filme poderia ser a jornada de Brown aprendendo a impor-se e enfrentar as suas questões pessoais mal resolvidas, triunfando num final colorido e apoteótico. Mas não é assim. Christine (e o banco) causou a morte de uma senhora que não tinha para onde ir, simplesmente não seria muito legal que ela tivesse sua glória. Individualismo não é algo que Raimi pareça gostar de recompensar em suas obras.

O final de Arraste-me Para o Inferno é subversivo porque estamos acostumados a ver nossos protagonistas triunfarem, mesmo que às vezes eles não mereçam. Sob outra perspectiva, Christine Brown é a vilã da história.

Sam Raimi, depois de décadas conseguiu nos brindar com mais um clássico do terror. Mesmo sem todas essas subversões, Arraste-me ainda é um filme divertido, gore e um trash honesto e orgulhoso. Filmes como esse me lembram porque eu amo tanto o terror.

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