Em 3 Dias Christine Brown Vai Para o Inferno: Subversões em Arraste-me Para O Inferno
Em 2009, Sam Raimi saiu do hiato enorme e lançou um novo filme de
terror: Arraste-me Para o Inferno. A promessa era de retornar às origens e isso
ele fez muito bem, me lembro de que quando vi o filme eu morri de medo, na
época a união de humor e horror fazia tudo parecer mais assustador pra mim
(talvez ainda faça).
Olhando para o filme em 2019, eu percebo o quão ele é esperto e brinca
com as convenções do gênero de filmes demoníacos e com as nossas expectativas,
o que parece ser algo de que Sam Raimi gosta bastante. Vamos analisar o filme mais
de perto para entender como Raimi enxerga os heróis de seus filmes bem como a
temática do sucesso e fracasso em suas narrativas.
Em 1981, Raimi lançou o primeiro filme de uma trilogia que mudaria o
cinema de terror: The Evil Dead: A Morte do Demônio ou Uma Noite Alucinante. A
combinação maluca de comédia e terror gore daria muito certo e colocaria Raimi no hall da fama do horror.
Seu protagonista, Ash Williams (interpretado de forma brilhante e magnífica por
Bruce Campbell), no entanto, não era bem o típico herói de filme de terror que se tinha até então. Ash
é desagradável, burro, inconsequente, imaturo e só faz merda, não tem
praticamente nenhuma virtude louvável que nos inspire e cause admiração.
Mais adiante, em 2001, temos o Peter Parker de Raimi. O Peter de Tobey Maguire
é um perdedor, até demais da conta (e por isso mesmo, o melhor de todos), só
que muita gente se sente desconfortável com ele exatamente por essa razão. Para
deixar mais claro vejam esse vídeo do Tralhas do Jon. Ele não é o herói machão
viril que muitos desejavam que fosse.
Sendo assim, chegamos na “heroína” de Arraste-me Para o Inferno: Christine Brown (Alison Lohman).
Christine é uma moça do interior que fez carreira na cidade grande, conseguiu
um namorado legal e bem de vida e tem uma possível promoção no banco em que trabalha
batendo na porta dela. Pressionada por um chefe que não a leva a sério e um
concorrente puxa saco, Christine faz uma coisa totalmente imoral.
Numa tarde, ela atende a velha cigana Sylvia Ganush (Lorna Raver). A
mulher tem um olho cego, tosse catarro num lenço e não é nem um pouco o retrato
de velhinha fofa que desperta simpatia. Mesmo assim, ainda era só uma senhora à
beira de perder a própria casa para um banco ricaço.
De olho na promoção, Christine nega a extensão do prazo de Ganush
fazendo a mulher implorar por uma chance a mais na frente de todos. A cena é
desconfortável de ver. Pausa para uma memória de Homem-Aranha: lembram-se da
cena em que a tia May e o Peter vão até o banco resolver uma questão de
empréstimo e a pobre May é humilhada pelo funcionário que os atende? Aqui nós
temos a situação ao contrário, mais ou menos. A intenção é a mesma, despertar
nossa compaixão.
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| Christine lendo a sorte com Ram Jas. |
Christine Brown é apresentada como uma jovem ambiciosa e egoísta, que
passa em cima da moral para conseguir o que quer (assim como os bancos são,
hhmmm). Brown é então amaldiçoada por Ganush, em três dias o demônio Lâmia vai
buscar sua alma e leva-la para o Inferno.
Depois da primeira aparição do demônio, Christine faz de tudo para se
salvar (até mata um filhote de gatinho, mesmo sendo defensora dos animais e
etc). A cada investida nós vemos a pressão e o sofrimento de Christine, mas a nossa simpatia por ela é ambígua. Isso é uma coisa ótima, principalmente
porque ela é uma protagonista mulher. É coisa raríssima que mulheres de moral
duvidosa sejam as protagonistas dos filmes, sempre reforçam que as mulheres são
seres angelicais, meigos e bondosos, sempre fazendo o que é ético. Ver uma
protagonista como Christine é uma subversão maravilhosa para o cinema de
terror, mesmo que seja natural para Raimi imagina-la assim.
O tema do fracasso é algo que Raimi aprecia bastante. Seu Ash Williams
tinha a missão de lembrar 3 palavrinhas e salvar o mundo, ele falha. Onde ele
tem a chance de acertar, ele erra. Mesmo que no fim ele conserte as coisas, o
erro foi dele só para começar.
O Peter de Raimi é, como eu disse, um fracassado. Tá sempre se
ferrando em tudo, como o filme é de outro gênero há os momentos de brilho,
obviamente, mas ele sempre deixa que Peter experimente uma vitória amarga,
nunca a doce glória.
O tema do herói que tenta, tenta e tenta, mas não consegue é familiar
para o diretor. Não é diferente com Christine Brown. Mesmo atravessando várias
situações ruins e se esforçando muito para se salvar, ela comete um erro. Um de
vários durante o filme. E vai para o inferno.
Pouco antes de morrer, Christine admite que tinha a escolha de não
expulsar Ganush da própria casa, mas o fez. Sendo assim, será mesmo
que o seu final não foi justo?
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| Tomando um banho de lama com a senhora Ganush. |
A trama do filme poderia ser a jornada de Brown aprendendo a impor-se
e enfrentar as suas questões pessoais mal resolvidas, triunfando num final
colorido e apoteótico. Mas não é assim. Christine (e o banco) causou a morte de
uma senhora que não tinha para onde ir, simplesmente não seria muito legal que
ela tivesse sua glória. Individualismo não é algo que Raimi pareça gostar de recompensar em suas obras.
O final de Arraste-me Para o Inferno é subversivo porque estamos
acostumados a ver nossos protagonistas triunfarem, mesmo que às vezes eles não
mereçam. Sob outra perspectiva, Christine Brown é a vilã da história.
Sam Raimi, depois de décadas conseguiu nos brindar com mais um clássico do terror. Mesmo sem todas essas subversões, Arraste-me ainda é um filme divertido, gore e um trash honesto e orgulhoso. Filmes como esse me lembram porque eu amo tanto o terror.






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