Tecnologia do Blogger.
ARQUIVO MALDITO

Antes do Halloween de John Carpenter ser lançado em 1978, a indústria cinematográfica canadense já havia produzido seu próprio slasher com temática de feriado, o natalino Black Christmas de 1974. O filme entitulado aqui como Natal Negro ou Natal Sangrento gerou uma série de continuações diretas e indiretas e mais recentemente ganhou um remake pela Blumhouse, lançado no final de 2019, chegando por aqui em 2020.

O longa dirigido por Sophia Takal (que comandou o segmento de ano-novo "New Year, New Me" da série antológica Into the Dark), e também co-escrito por ela, não recebeu muita atenção no ano passado, mas o seu original não é exatamente uma grande estrela entre os slashers mundo afora.
Não sendo fã do original ou mesmo do remake anterior de 2006, eu pude assistir este novo sem apego saudosista algum e logo nas primeiras cenas ele me cativou.

Filmes em geral podem optar por serem discretos com suas analogias ou explícitos, a escolha de Takal é partir direto pro ataque. No filme, jovens mulheres estudantes do campus da universidade milenar Hawthorne College passam a ser mortas por um assassino que usa a alcunha do fundador da instituição para se esconder.


Sem muita sutileza (e isso não é necessariamente algo ruim) a diretora quer denunciar o machismo imbricado em instituições de ensino e na sociedade como um todo. Na primeira cena do filme temos uma moça andando sozinha à noite, ela suspeita que está sendo seguida e pega as chaves de casa segurando-as como um soco inglês improvisado (algo feito cotidianamente por muitas mulheres), o clima é agoniante por ser familiar e sem desperdiçar tempo narrativo ela nos mostra que tem plena consciência de que mensagem seu filme quer transmitir.

O filme todo se passa em um campus universitário e uma googlada básica nos permite saber que o nível de estupros e assédios contra mulheres nesses espaços é praticamente uma epidemia, caso queiram saber mais recomendo este texto da Vice. Sophia Takal usa esse ambiente, agressivo contra as mulheres por si só, como pano de fundo para sua trama.


As protagonistas da produção tem suas lutas pessoais contra o patriarcado institucional, Riley (Imogen Potts) foi estuprada por um membro da fraternidade de boys lixo da universidade, comandada pelo professor Gelson (Cary Elwes), enfrentando ele mesmo acusações e uma petição para sua retirada do cargo da aluna e amiga de Riley, Jesse (Aleyse Shannon). As jovens não são do tipo que dá descanso para discursos preconceituosos de nenhuma forma (o que pode soar panfletário no início, mas ao longo da narrativa se ajusta) e isso as torna alvos dos homens da universidade, exceto pelo jovem Landon (Caleb Eberhardt) que ganha certa simpatia do grupo.

Entrando na linha dos spoilers agora (se você não quer saber nada, assista o filme e depois leia o texto), o trecho final da produção que passa do real para o sobrenatural pode desagradar quem esperava algo mais pé no chão e eu compreendo a resistência, mas isso é mero detalhe. 

Riley e suas amigas acabam descobrindo que o busto de pedra de Hawthorne, o fundador da universidade (e suprassumo dos piores preconceitos da humanidade), possui qualidades mágicas capazes de transformar rapazes em machistinhas ferrenhos com sede de sangue feminino (ok, mais machistinhas). Depois de algumas mortes e revelações, o único homem inocente e que permanece ao lado das nossas heroínas é Landon (note que ele também é o único homem negro presente na produção, ao passo que todos os vilões são brancos e isso não está ali por acaso).

O fato de que não existe apenas um assassino também cria um ar maior de perigo, porque nos passa a sensação de que poderia ser qualquer homem, não devemos confiar em nenhum deles. Exatamente o que vítimas de abuso sentem sobre os agressores.

Ver a protagonista se empoderar depois da terrível violência que sofreu é tremendamente libertador para as mulheres que já passaram por situações semelhantes.

Há ainda quem ache o filme meio bobo e tudo bem, eu nunca disse que ele é perfeito. Alguns pontos podiam ser melhor trabalhados, mas isso não deixa ele menos divertido. É sempre bom ver homens imbecis se dando mal e morrendo pela mão de mulheres.



Share
Tweet
Pin
Share
No comentários


Aviso: Contém gatilhos para estupro e violência contra a mulher.

1. A Problemática do Subgênero Rape and Revenge:

O subgênero rape and revenge tem que acabar. É um artifício pobre, problemático e totalmente fetichizado. Os diretores e roteiristas de filmes como I Spit on Your Grave (bem como de seus remakes e sequências) não tem nenhuma sensibilidade para trabalhar com um tema tão complicado e acabam fazendo um pornô de estupro e assassinato que é intragável de assistir se você for mulher. Usar estupro como motivação para a ação feminina é um cliché que homens parecem adorar e isso tem que parar.

Eu mesma, quase não assisti à Revenge por medo de ser atormentada por esses fatores. Isso mudou quando as primeiras resenhas do filme saíram.

Dito isso, o que tem de diferente em Revenge?


2. A Mudança Necessária em Revenge:

Começando pelo óbvio, o filme tem uma mulher no comando. Coralie Fargeat além de dirigir a produção também a roteiriza e isso faz toda a diferença.

Ao contrário de I Spit On Your Grave, em Revenge a cena de estupro dura pouco tempo e acontece off screen tentando evitar ao máximo os gatilhos visuais e a erotização do estupro.

As cores são parte importante da identidade visual de Revenge.

Além disso, Coralie é uma diretora muito mais competente do que os homens que fizeram os filmes acima citados. Seu filme é estiloso e bem feito, a fotografia é quente referenciando ao cinema explotation, as cores são fortes e simbólicas e as técnicas de filmagem são mais sofisticadas.

Sendo assim, Revenge se torna o rape and revenge definitivo do cinema, não é necessário fazer mais nenhum filme do subgênero (muito embora uma sequência direta de I Spit On Your Grave já esteja preparada, com a filha da protagonista original, o que só prova o mau gosto desses filmes).


3. Quando a Vingança é Simétrica:

Um ponto que me chamou muito a atenção no filme de Coralie é como ela relaciona vingança e simetria de maneira visual, para evocar um tipo de justiça divina nas ações de sua protagonista.

Matilda Lutz como Jen.
A Jennifer (Matilda Lutz, ótima) de Coralie é uma mulher jovem e vibrante, cheia de vida e abertamente sexual, mas nada em seu comportamento é usado como justificativa para a violência que ela sofre. Passando um tempo com o namorado Richard em um deserto, acompanhada com dois amigos do sujeito Dimitri e Stanley, ela se diverte e age com a liberdade que tem direito, mas obviamente os homens entendem tudo como uma oferta sexual.

No dia seguinte aproveitando-se da ausência de Richard, Stanley estupra Jen. A cena é grotesca e triste, como deveria. Antes de começar a violência Stanley é interrompido momentaneamente por Dimitri que fica parado na porta olhando em silêncio, logo em seguida virando as costas e saindo sem fazer nada. Homens protegem outros homens, nenhuma surpresa.

Jen lutando por sua vida e por sua sanidade.
Quando Richard retorna, Jen pede para ir embora o que ele recusa, os dois discutem e ele bate na moça. Com medo, Jen corre para o deserto depois de ameaçar contar à esposa de Richard sobre o caso deles e das suas falcatruas criminosas. Ela é seguida pelos três, mas é aquele em quem ela confiava que a empurra para a morte.

Um galho atravessa a lateral de seu abdômen na queda e os homens pensam que ela está morta, mas não está. Jen acorda e consegue se recuperar minimamente.

Não demora até eles descobrirem o fato e reiniciarem a perseguição, então o filme vira um banho de sangue digno do new french extremity.

Sendo Coralie uma ótima diretora, ela faz desses atos de vingança pequenos momentos de referência visual às violências que Jen sofreu.


4. A Cada Dívida o Pagamento Merecido:

O primeiro homem que Jen consegue matar é Dimitri, ela enfia uma faca em seu olho e o larga na água. Dimitri era o observador. Ela apenas assistia a moça enquanto ela andava e dançava. No momento em que ela era violentada, ele continuou apenas olhando. Foram os olhos de Dimitri que feriram Jen e foi pelos olhos que ele morreu.

A segunda morte é a de Stanley, mesmo armada é uma luta difícil para Jen porque ela é uma pessoa comum. Na cena, ela atira à distância nele e acerta em seu ombro, mas também é ferida. Na fuga ela quebra uma lanterna que carregava consigo e Stanley pisa em um caco de vidro.

A câmera foca em seu pé machucado, a abertura vertical no membro é semelhante à abertura vaginal e bem no meio do corte há um caco penetrando a pele. Não é preciso dizer mais, porque já é forte o suficiente relacionar essas duas cenas. Stanley é morto de maneira rápida e brutal exatamente como feriu Jen.

Richard é o último desafio de Jen.
Por fim, mas não menos simbólico temos Richard. Jen vai até a casa onde o homem está tomando um banho, ele percebe a presença de alguém e temos uma longa perseguição por cômodos e corredores encharcados de sangue. Jen atira em Richard na lateral de seu abdômen, onde ela teve o galho atravessado. E, o tiro fatal é em seu peito, mais precisamente em seu coração. Richard foi machucado nos dois lugares onde machucou Jen.

A vingança é simétrica.

Jen mirando na cara dos clichés.

Coralie Fargeat criou uma obra prima do terror e o rape and revenge feminista necessário para nossa geração. Agora, seria ótimo se finalmente deixássemos esse tema morrer, reparando a banalização e prazer voyeurístico que aplicaram a uma violência que é cometida a mulheres no mundo todo e ao tempo todo. Mesmo sabendo que isso não vai acontecer, pelo menos eu quero fazer você pensar de novo sobre esses filmes e, quem sabe, deixar de ser a audiência necessária para sua perpetuação.


Share
Tweet
Pin
Share
No comentários


O subgênero found footage ainda que saturado, pode reservar boas surpresas ou ao menos alguns filmes competentes, basta ir sem muita expectativa e conhecendo os maneirismos do estilo. De vez em quando uma produção consegue se sobressair e fazer algo decente.

A Maldição da Freira é um filme deste ano (lançado em 2018, só chegou no Brasil em 2019), dirigido pela irlandesa Aisllin Clarke, que tem experiência com curtas de terror e a usa para fazer um bom found footage.

No ano de 1960 dois padres são enviados pelo Vaticano para avaliar um possível milagre num lar de “mulheres perdidas” (órfãs, doentes mentais, grávidas solteiras e tudo que fosse considerado fora do normal na época) na Irlanda. O padre mais velho, Thomas (Lalor Roddy, meigo e bom), é cético sobre o suposto milagre de uma santa que chora sangue. Seu assistente, padre John (Ciaran Fllyn, o mais fraco no elenco) é o responsável por registrar a pesquisa e é mais crente na verdade por trás do evento. O lar é administrado pela Madre Superiora Agnes (Helena Bereen, assustadora e ótima), com mão de ferro e impiedosa, ela parece ser o verdadeiro mal que reina no lar.


Conforme os dias se passam, os padres descobrem os segredos perturbadores e sujos do lugar, que incluem uma jovem (Lauren Coe) presa num porão sob uma provável possessão demoníaca e a ligação das jovens do lugar com indiscrições de padres. Isso foi o que chamou mais minha atenção na obra.

Clarke escreveu uma história que funciona também como um drama de denúncia da Igreja Católica e suas práticas misóginas. Tudo isso encarnado na figura da Madre Superiora, em suas falas, a mulher deixa claro que o lugar que cuida nem deveria existir se não fossem os pecados dos homens da Igreja. As moças que vão até lá, grávidas e expulsas de casa, se “perderam” por padres católicos e foram deixadas à própria sorte. As crianças mortas, abandonadas ou abortadas são fruto do desvio desses padres. Desvio que pesa sobre o futuro dessas mulheres e da própria Agnes.

O ponto é claro: o Mal que se infiltrou no abrigo, se originou do pecado dos homens ao usarem essas mulheres e depois joga-las para baixo do tapete. Alguém tinha que tomar uma providência enérgica, já que a fé cristã não ajudava talvez alguma outra entidade atendesse essa necessidade.


Tudo poderia ser melhor usado em outro formato, no found footage a interessante trama divide tempo com jump scares e situações de confusão com câmera tremendo, ainda que muitos sustos funcionem, eu imagino o que Clarke conseguiria ter feito num outro tipo de filme.

As imagens que ela evoca são perturbadoras o bastante para despertar interesse, o clima é pesado e sombrio. O ritmo da trama se perde um pouco no final, derretendo o foco do espectador, mas no fim das contas é um bom found footage e tem uma história importante pra contar, mesmo que não chegue a ser inesquecível.
Share
Tweet
Pin
Share
No comentários

Esse é o possivelmente um dos textos mais difíceis que eu vou escrever em minha vida. Meus dedos hesitam no teclado a cada palavra, procurando a melhor maneira de dizer o que preciso. Bem, recentemente, eu me libertei de um relacionamento abusivo de quase cinco anos. Isso tem apenas dois meses.

Não é fácil encarar a situação e, como sempre que me sinto mal eu assisto aos filmes Pânico, o fiz tem alguns dias. Foi aí que me dei conta de que esses filmes estavam gritando para mim alguns detalhes perturbadores sobre a minha própria história. Não é nada agradável me ver ali, mas preciso compartilhar minhas reflexões porque talvez elas ajudem mais alguém.

Sou uma amante de filmes de terror. Logo, não é difícil que eu os tenha como coisas constantes em meu cotidiano, seja para entretenimento, seja para estudo ou conforto espiritual. Com Pânico encontrei os três. Antes de qualquer coisa então, vou tentar contextualizar minha história com esses filmes.



1. Aconteceu em Woodsboro, há alguns anos:

Eu devia ter uns seis anos quando vi o filme Pânico 02, meus pais o alugaram e não faziam muita cerimônia que eu e minha irmã víssemos junto com eles um filme de terror. Eu não entendi muito bem a razão, mas de repente me vi amando a protagonista Sidney Prescott (interpretada por Neve Campbell, no papel de sua vida). Havia alguma coisa em Sidney que falava alto comigo, talvez porque fisicamente ela parecia uma garota comum. Sidney era real, como eu.

A trama em si passava um pouco batido para mim, eu apenas adorava o filme e pronto (o primeiro filme só fui ver muito tempo depois). A mesma coisa se repetiu com o terceiro filme. Havia algo ali, eu só não sabia o que.

Em 2011, quando eu estava no terceiro ano do ensino médio, Wes Craven ressuscitou sua franquia amada para um capítulo final. Obviamente, fiquei maluca com a notícia, cheguei até a sonhar com o filme. O problema é que fazia anos que eu não assistia aos antigos, nem me lembrava de como eram. Resolvi fazer um revival dos três primeiros e a minha reação não foi nem perto de gostar.


Sou uma fã de terror obcecada, mas esperava algo diferente dos filmes que eu tanto gostava quando criança. Eles eram… Engraçados. Quem conhece a lógica de Wes Craven para os filmes deve estar revirando os olhos agora, mas eu não sabia muito na época.

Eu me senti estranha, mas foi só um choque passageiro. Fiz questão de rever cada um dos filmes assim que assisti a quarta parte. E eu simplesmente amei! Meus filmes queridos de infância viraram meus filmes de terror favoritos da vida inteira. Todo ano eu os vejo. São aqueles filmes que assisto sempre que me sinto mal com a vida. O que é bastante.

Com o tempo veio o conhecimentoe percebi que esses filmes tinham muito a dizer. Além da desconstrução do gênero slasher, que inclui uma protagonista forte e corajosa até a metalinguagem explícita, ele falam sobre algo muito mais importante: abuso e suas consequências. Agora eu entro na problemática desse texto. E onde começamos? Com Sidney e Billy? Não, tudo começou com Maureen Prescott.

2. Maureen Prescott, uma vida perdida:

No primeiro Pânico nós ficamos sabendo que a mãe de Sidney, Maureen, tinha um relacionamento fora do casamento com Cotton Weary (Liev Schreiber), posteriormente acusado de violentá-la e matá-la, por essa razão está preso. A única pessoa a acreditar na inocência dele é a jornalista Gale Weathers (Courteney Cox, ótima). Sidney não pensa outra coisa a não ser que sua mãe jamais trairia o pai, logo o pior deve ser a verdade. Ignorando os boatos que corriam pela cidade de que Maureen era infiel, Sidney acredita na versão cruel dos fatos.

Sidney faz o que qualquer filha faria, ninguém quer acreditar que a mãe ou o pai não são aqueles modelos perfeitos que construímos em nossas mentes. Para apoiá-la ela tem a melhor amiga Tatum Riley (Rose McGowan, na situação que estourou anos depois a queda de Harvey Wenstein), irmã do policial Dewey Riley (David Arquette, adorável). Além deles, existe um namorado, Billy Loomis (Skeeth Ulrich).

No final, nós descobrimos que Maureen teve um caso com o pai de Billy, o que causou o divórcio de seus pais. Billy inconformado, mata a mãe de Sidney e planeja uma vingança mirabolante e psicótica para a moça e os jovens de Woodsboro.

Maureen era sim uma adúltera, mas não é tudo que ela era. No terceiro filme, ficamos sabendo mais sobre a vida de Maureen antes de Sidney. Quando jovem, ela tentou a sorte em Hollywood como atriz, o que não foi como ela imaginava.

Num texto do CinePop, há uma relação desse filme e os casos de assédio que rolavam às escondidas na terra do cinema. Sendo uma produção dos irmãos Wenstein a coisa fica ainda pior. Estaria Wes Craven mandando um recado? Bom, o que sabemos é que Maureen foi violentada numa festa organizada por um produtor poderoso. Depois disso, ela nunca mais foi a mesma. Quem seria?




Maureen recomeçou em Woodsboro, mas é como se algo estivesse quebrado dentro dela. Talvez ela se culpasse pelo o que aconteceu (tanto pelo abuso quanto pelo filho que ela deixou para trás, que era fruto da violência contra ela). Muito provavelmente Maureen achava que não merecia uma vida feliz, uma família que a amava, então de modo inconsciente ela sabotou a si mesma. Em seu caminho, mais uma vez, ela encontrou um homem perigoso. O projeto de psicopata, Billy Loomis.

Os abusos sofridos em sua juventude ecoaram e a seguiram por toda a vida como um fantasma (igual ao da máscara). Aquela festa nunca acabou de verdade para a mãe, mas Sidney só descobriu isso muito tempo depois. A própria Sidney foi vítima de um relacionamento abusivo, que a marcou para a vida. Como muitas filhas que ao crescerem em lares abusivos, ela repetiu o padrão cegamente (assim como eu).

Falemos então de Sidney Prescott.

3. A Sobrevivente:



Sidney é só uma adolescente quando ela e Billy namoravam. Billy se pagava de cara legal que não queria apressar as coisas, mesmo sabendo da hesitação clara de Sidney em transar com ele (qual seria a alternativa? Obriga-la a fazer sexo ou terminar o namoro? Nossa Billy, que cara legal!)

Só para ressaltar alguns fatos: a mãe de Sidney havia falecido há um ano mais ou menos e ela e o pai tentavam lidar com a morte violenta de Maureen e com os boatos sobre sua reputação. Mas Billy achava mais importante que a namorada resolvesse transar com ele logo.

Billy pressiona Sidney, diminui seu sofrimento, o relativiza. Billy manipula a namorada. Billy não é um cara legal. Sidney não o vê assim, até o final do filme. Sidney acredita que o namorado é uma boa pessoa. Quem a culparia por isso? Imagine o choque ao descobrir que a pessoa em que você depositou seu primeiro relacionamento e sentimentos é uma pessoa horrível e que quer te machucar (vocês não sabem como é difícil reconhecer que eu e Sidney teríamos tanto em comum).




Sidney luta e sobrevive à loucura de Billy, mas não significa que acabou. Na faculdade, Sidney tenta lidar como os eventos de Woodsboro e se abrir para a vida novamente. Ela tem até um namorado novo, Derek (Jerry O’Connel). Tudo parece estar se arrumando, mas então as mortes voltam a acontecer.

Não demora muito para Sidney se sentir insegura sobre Derek. Mesmo que ele pareça um bom sujeito, ela já se enganou antes. Ela deixou alguém de aproximar demais e acabou machucada. Billy tirou dela a tranquilidade de se apaixonar e confiar em alguém de novo.

Sidney também ganhou seu fantasma. Derek se prova inocente no final, mas é tarde demais. Ela simplesmente não podia acreditar nele. Mais uma vez ela luta e sobrevive.




O terceiro filme é quando Sidney finalmente vai descobrir toda a verdade sobre Maureen. Depois dos eventos de Woodsboro e no campus universitário, Sidney e o pai se isolam do mundo e ela começa a trabalhar num serviço de atendimento para mulheres vítimas de abuso. Ajudar os outros é uma forma de ajudar a si mesma.

Seu fantasma a encontra novamente, mas dessa vez os dois possuem muito em comum, são frutos da mesma ferida aberta. O problema do seu inimigo e irmão é que ele não entendeu a dor de Maureen como deveria, ele a culpou em muitos níveis e ela era apenas uma vítima. A verdade sobre a mãe apazigua o coração de Sidney e ela está pronta para deixar tudo para trás.

O que sabemos sobre ela depois, no quarto filme é que se reinventou. Cansada de ser a vítima, Sidney se reescreveu (literalmente, através de seu livro) e tomou de volta as rédeas de sua vida. Ele é uma mulher completa e confiante. Enfrentar o fantasma depois disso, não foi tão desafiador.




É o que eu estou tentando fazer a cada dia que passa. É o que muitas vítimas de abusos tentam fazer a cada dia. Assim como a jornada de Sidney, não é fácil passar por todas as emoções e sobreviver aos nossos fantasmas. Mas é preciso que em algum momento nós nos reinventemos. Isso é dito àquelas de nós que conseguem sobreviver à violência. Muitas não terão essa oportunidade e isso é terrível.

Pânico é apenas um filme, ninguém morre e é ferido de verdade nele. A vida real é bem mais cruel. Eu desejo a você que está lendo isso e se encontra em perigo, que consiga ajuda e se salve. Que você sobreviva.

Assim como Sidney Prescott saiu da escuridão e renasceu, nós também podemos. Quando estivermos prontas, nós podemos escrever outra história e seguir em frente. Nós podemos matar nossos fantasmas. Vai demorar e muitas vezes vamos duvidar de nossa capacidade. Não duvide, a gente consegue.

Eu procurei suporte em um filme de terror para escrever sobre o que passei e tentar deixar isso para trás. Ache alguma coisa que te faça sentir como você mesma e use isso para se fortalecer. Confie em alguém para dividir sua história, amigos e familiares ou até mesmo eu.

As palavras podem te salvar.



Share
Tweet
Pin
Share
No comentários
Older Posts

Páginas

  • Filmes e Séries
  • AM Podcast
  • Literatura

Posts Recentes

SIGA O AM

  • instagram
  • Spotify
  • YouTube

Arquivo do AM

  • abril 2023 (1)
  • janeiro 2023 (1)
  • janeiro 2022 (1)
  • dezembro 2021 (1)
  • janeiro 2021 (3)
  • novembro 2020 (6)
  • junho 2020 (2)
  • maio 2020 (3)
  • abril 2020 (2)
  • março 2020 (4)
  • fevereiro 2020 (2)
  • janeiro 2020 (1)
  • setembro 2019 (1)
  • agosto 2019 (1)
  • julho 2019 (1)
  • junho 2019 (2)
  • maio 2019 (8)
  • abril 2019 (14)
  • fevereiro 2019 (1)
  • novembro 2018 (2)
  • outubro 2018 (1)
  • setembro 2018 (1)
  • agosto 2018 (1)
  • junho 2018 (1)
  • maio 2018 (1)
  • abril 2018 (1)
  • março 2018 (1)

SOBRE O AM

O Arquivo Maldito nasceu com a intenção de analisar o mundo do terror (e da cultura pop em geral) com um olhar social e problematizador.

Marcadores

Filmes e Séries Terror Feminismo Representatividade Terror Indie Mulheres Literatura Clive Barker Colírios do Creepshow Abuso Amazon Prime Blumhouse Drag Me To Hell AJ.Bowen Antologia Arraste-me Para o Inferno Ash vs Evil Dead Bruxas Channel Zero Cultos Found Footage Frankenstein's Army Hellraiser Heróis Homofobia Hulu Into The Dark Junji Ito Livro Mangás Noroi Operação Overlord Raça das Trevas Sam Raimi A Horrible Way To Die Alfred Hitchcock Amy Seimetz Anos 80 Assassination Nation CW Charmed Digging Up The Marrow Fear Inc Gyo HBO Happy Hellstar Remina Lovecraft Ma no Kakera Mindy McGinnis Mãe! Neil Gaiman O Sinal Os Demônios de Dorothy Mills Procura-se Uma Babá Pânico Reboot Sandman Scream Sidney Prescott Southbound The Girl The Invitation The Shrine The Void Tick Timeless Uzumaki Você É O Próximo

Created with by ThemeXpose