Revenge: Vingança e Simetria

by - maio 13, 2019



Aviso: Contém gatilhos para estupro e violência contra a mulher.

1. A Problemática do Subgênero Rape and Revenge:

O subgênero rape and revenge tem que acabar. É um artifício pobre, problemático e totalmente fetichizado. Os diretores e roteiristas de filmes como I Spit on Your Grave (bem como de seus remakes e sequências) não tem nenhuma sensibilidade para trabalhar com um tema tão complicado e acabam fazendo um pornô de estupro e assassinato que é intragável de assistir se você for mulher. Usar estupro como motivação para a ação feminina é um cliché que homens parecem adorar e isso tem que parar.

Eu mesma, quase não assisti à Revenge por medo de ser atormentada por esses fatores. Isso mudou quando as primeiras resenhas do filme saíram.

Dito isso, o que tem de diferente em Revenge?


2. A Mudança Necessária em Revenge:

Começando pelo óbvio, o filme tem uma mulher no comando. Coralie Fargeat além de dirigir a produção também a roteiriza e isso faz toda a diferença.

Ao contrário de I Spit On Your Grave, em Revenge a cena de estupro dura pouco tempo e acontece off screen tentando evitar ao máximo os gatilhos visuais e a erotização do estupro.

As cores são parte importante da identidade visual de Revenge.

Além disso, Coralie é uma diretora muito mais competente do que os homens que fizeram os filmes acima citados. Seu filme é estiloso e bem feito, a fotografia é quente referenciando ao cinema explotation, as cores são fortes e simbólicas e as técnicas de filmagem são mais sofisticadas.

Sendo assim, Revenge se torna o rape and revenge definitivo do cinema, não é necessário fazer mais nenhum filme do subgênero (muito embora uma sequência direta de I Spit On Your Grave já esteja preparada, com a filha da protagonista original, o que só prova o mau gosto desses filmes).


3. Quando a Vingança é Simétrica:

Um ponto que me chamou muito a atenção no filme de Coralie é como ela relaciona vingança e simetria de maneira visual, para evocar um tipo de justiça divina nas ações de sua protagonista.

Matilda Lutz como Jen.
A Jennifer (Matilda Lutz, ótima) de Coralie é uma mulher jovem e vibrante, cheia de vida e abertamente sexual, mas nada em seu comportamento é usado como justificativa para a violência que ela sofre. Passando um tempo com o namorado Richard em um deserto, acompanhada com dois amigos do sujeito Dimitri e Stanley, ela se diverte e age com a liberdade que tem direito, mas obviamente os homens entendem tudo como uma oferta sexual.

No dia seguinte aproveitando-se da ausência de Richard, Stanley estupra Jen. A cena é grotesca e triste, como deveria. Antes de começar a violência Stanley é interrompido momentaneamente por Dimitri que fica parado na porta olhando em silêncio, logo em seguida virando as costas e saindo sem fazer nada. Homens protegem outros homens, nenhuma surpresa.

Jen lutando por sua vida e por sua sanidade.
Quando Richard retorna, Jen pede para ir embora o que ele recusa, os dois discutem e ele bate na moça. Com medo, Jen corre para o deserto depois de ameaçar contar à esposa de Richard sobre o caso deles e das suas falcatruas criminosas. Ela é seguida pelos três, mas é aquele em quem ela confiava que a empurra para a morte.

Um galho atravessa a lateral de seu abdômen na queda e os homens pensam que ela está morta, mas não está. Jen acorda e consegue se recuperar minimamente.

Não demora até eles descobrirem o fato e reiniciarem a perseguição, então o filme vira um banho de sangue digno do new french extremity.

Sendo Coralie uma ótima diretora, ela faz desses atos de vingança pequenos momentos de referência visual às violências que Jen sofreu.


4. A Cada Dívida o Pagamento Merecido:

O primeiro homem que Jen consegue matar é Dimitri, ela enfia uma faca em seu olho e o larga na água. Dimitri era o observador. Ela apenas assistia a moça enquanto ela andava e dançava. No momento em que ela era violentada, ele continuou apenas olhando. Foram os olhos de Dimitri que feriram Jen e foi pelos olhos que ele morreu.

A segunda morte é a de Stanley, mesmo armada é uma luta difícil para Jen porque ela é uma pessoa comum. Na cena, ela atira à distância nele e acerta em seu ombro, mas também é ferida. Na fuga ela quebra uma lanterna que carregava consigo e Stanley pisa em um caco de vidro.

A câmera foca em seu pé machucado, a abertura vertical no membro é semelhante à abertura vaginal e bem no meio do corte há um caco penetrando a pele. Não é preciso dizer mais, porque já é forte o suficiente relacionar essas duas cenas. Stanley é morto de maneira rápida e brutal exatamente como feriu Jen.

Richard é o último desafio de Jen.
Por fim, mas não menos simbólico temos Richard. Jen vai até a casa onde o homem está tomando um banho, ele percebe a presença de alguém e temos uma longa perseguição por cômodos e corredores encharcados de sangue. Jen atira em Richard na lateral de seu abdômen, onde ela teve o galho atravessado. E, o tiro fatal é em seu peito, mais precisamente em seu coração. Richard foi machucado nos dois lugares onde machucou Jen.

A vingança é simétrica.

Jen mirando na cara dos clichés.

Coralie Fargeat criou uma obra prima do terror e o rape and revenge feminista necessário para nossa geração. Agora, seria ótimo se finalmente deixássemos esse tema morrer, reparando a banalização e prazer voyeurístico que aplicaram a uma violência que é cometida a mulheres no mundo todo e ao tempo todo. Mesmo sabendo que isso não vai acontecer, pelo menos eu quero fazer você pensar de novo sobre esses filmes e, quem sabe, deixar de ser a audiência necessária para sua perpetuação.


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