Pânico De Wes Craven E Os Fantasmas Do Abuso
Esse é o possivelmente um dos textos mais difíceis que eu vou escrever em minha vida. Meus dedos hesitam no teclado a cada palavra, procurando a melhor maneira de dizer o que preciso. Bem, recentemente, eu me libertei de um relacionamento abusivo de quase cinco anos. Isso tem apenas dois meses.
Não é fácil encarar a situação e, como sempre que me sinto mal eu assisto aos filmes Pânico, o fiz tem alguns dias. Foi aí que me dei conta de que esses filmes estavam gritando para mim alguns detalhes perturbadores sobre a minha própria história. Não é nada agradável me ver ali, mas preciso compartilhar minhas reflexões porque talvez elas ajudem mais alguém.
Sou uma amante de filmes de terror. Logo, não é difícil que eu os tenha como coisas constantes em meu cotidiano, seja para entretenimento, seja para estudo ou conforto espiritual. Com Pânico encontrei os três. Antes de qualquer coisa então, vou tentar contextualizar minha história com esses filmes.
1. Aconteceu em Woodsboro, há alguns anos:
Eu devia ter uns seis anos quando vi o filme Pânico 02, meus pais o alugaram e não faziam muita cerimônia que eu e minha irmã víssemos junto com eles um filme de terror. Eu não entendi muito bem a razão, mas de repente me vi amando a protagonista Sidney Prescott (interpretada por Neve Campbell, no papel de sua vida). Havia alguma coisa em Sidney que falava alto comigo, talvez porque fisicamente ela parecia uma garota comum. Sidney era real, como eu.
A trama em si passava um pouco batido para mim, eu apenas adorava o filme e pronto (o primeiro filme só fui ver muito tempo depois). A mesma coisa se repetiu com o terceiro filme. Havia algo ali, eu só não sabia o que.
Em 2011, quando eu estava no terceiro ano do ensino médio, Wes Craven ressuscitou sua franquia amada para um capítulo final. Obviamente, fiquei maluca com a notícia, cheguei até a sonhar com o filme. O problema é que fazia anos que eu não assistia aos antigos, nem me lembrava de como eram. Resolvi fazer um revival dos três primeiros e a minha reação não foi nem perto de gostar.
Sou uma fã de terror obcecada, mas esperava algo diferente dos filmes que eu tanto gostava quando criança. Eles eram… Engraçados. Quem conhece a lógica de Wes Craven para os filmes deve estar revirando os olhos agora, mas eu não sabia muito na época.
Eu me senti estranha, mas foi só um choque passageiro. Fiz questão de rever cada um dos filmes assim que assisti a quarta parte. E eu simplesmente amei! Meus filmes queridos de infância viraram meus filmes de terror favoritos da vida inteira. Todo ano eu os vejo. São aqueles filmes que assisto sempre que me sinto mal com a vida. O que é bastante.
Com o tempo veio o conhecimentoe percebi que esses filmes tinham muito a dizer. Além da desconstrução do gênero slasher, que inclui uma protagonista forte e corajosa até a metalinguagem explícita, ele falam sobre algo muito mais importante: abuso e suas consequências. Agora eu entro na problemática desse texto. E onde começamos? Com Sidney e Billy? Não, tudo começou com Maureen Prescott.
2. Maureen Prescott, uma vida perdida:
No primeiro Pânico nós ficamos sabendo que a mãe de Sidney, Maureen, tinha um relacionamento fora do casamento com Cotton Weary (Liev Schreiber), posteriormente acusado de violentá-la e matá-la, por essa razão está preso. A única pessoa a acreditar na inocência dele é a jornalista Gale Weathers (Courteney Cox, ótima). Sidney não pensa outra coisa a não ser que sua mãe jamais trairia o pai, logo o pior deve ser a verdade. Ignorando os boatos que corriam pela cidade de que Maureen era infiel, Sidney acredita na versão cruel dos fatos.
Sidney faz o que qualquer filha faria, ninguém quer acreditar que a mãe ou o pai não são aqueles modelos perfeitos que construímos em nossas mentes. Para apoiá-la ela tem a melhor amiga Tatum Riley (Rose McGowan, na situação que estourou anos depois a queda de Harvey Wenstein), irmã do policial Dewey Riley (David Arquette, adorável). Além deles, existe um namorado, Billy Loomis (Skeeth Ulrich).
No final, nós descobrimos que Maureen teve um caso com o pai de Billy, o que causou o divórcio de seus pais. Billy inconformado, mata a mãe de Sidney e planeja uma vingança mirabolante e psicótica para a moça e os jovens de Woodsboro.
Maureen era sim uma adúltera, mas não é tudo que ela era. No terceiro filme, ficamos sabendo mais sobre a vida de Maureen antes de Sidney. Quando jovem, ela tentou a sorte em Hollywood como atriz, o que não foi como ela imaginava.
Num texto do CinePop, há uma relação desse filme e os casos de assédio que rolavam às escondidas na terra do cinema. Sendo uma produção dos irmãos Wenstein a coisa fica ainda pior. Estaria Wes Craven mandando um recado? Bom, o que sabemos é que Maureen foi violentada numa festa organizada por um produtor poderoso. Depois disso, ela nunca mais foi a mesma. Quem seria?
Maureen recomeçou em Woodsboro, mas é como se algo estivesse quebrado dentro dela. Talvez ela se culpasse pelo o que aconteceu (tanto pelo abuso quanto pelo filho que ela deixou para trás, que era fruto da violência contra ela). Muito provavelmente Maureen achava que não merecia uma vida feliz, uma família que a amava, então de modo inconsciente ela sabotou a si mesma. Em seu caminho, mais uma vez, ela encontrou um homem perigoso. O projeto de psicopata, Billy Loomis.
Os abusos sofridos em sua juventude ecoaram e a seguiram por toda a vida como um fantasma (igual ao da máscara). Aquela festa nunca acabou de verdade para a mãe, mas Sidney só descobriu isso muito tempo depois. A própria Sidney foi vítima de um relacionamento abusivo, que a marcou para a vida. Como muitas filhas que ao crescerem em lares abusivos, ela repetiu o padrão cegamente (assim como eu).
Falemos então de Sidney Prescott.
3. A Sobrevivente:
Sidney é só uma adolescente quando ela e Billy namoravam. Billy se pagava de cara legal que não queria apressar as coisas, mesmo sabendo da hesitação clara de Sidney em transar com ele (qual seria a alternativa? Obriga-la a fazer sexo ou terminar o namoro? Nossa Billy, que cara legal!)
Só para ressaltar alguns fatos: a mãe de Sidney havia falecido há um ano mais ou menos e ela e o pai tentavam lidar com a morte violenta de Maureen e com os boatos sobre sua reputação. Mas Billy achava mais importante que a namorada resolvesse transar com ele logo.
Billy pressiona Sidney, diminui seu sofrimento, o relativiza. Billy manipula a namorada. Billy não é um cara legal. Sidney não o vê assim, até o final do filme. Sidney acredita que o namorado é uma boa pessoa. Quem a culparia por isso? Imagine o choque ao descobrir que a pessoa em que você depositou seu primeiro relacionamento e sentimentos é uma pessoa horrível e que quer te machucar (vocês não sabem como é difícil reconhecer que eu e Sidney teríamos tanto em comum).
Sidney luta e sobrevive à loucura de Billy, mas não significa que acabou. Na faculdade, Sidney tenta lidar como os eventos de Woodsboro e se abrir para a vida novamente. Ela tem até um namorado novo, Derek (Jerry O’Connel). Tudo parece estar se arrumando, mas então as mortes voltam a acontecer.
Não demora muito para Sidney se sentir insegura sobre Derek. Mesmo que ele pareça um bom sujeito, ela já se enganou antes. Ela deixou alguém de aproximar demais e acabou machucada. Billy tirou dela a tranquilidade de se apaixonar e confiar em alguém de novo.
Sidney também ganhou seu fantasma. Derek se prova inocente no final, mas é tarde demais. Ela simplesmente não podia acreditar nele. Mais uma vez ela luta e sobrevive.
O terceiro filme é quando Sidney finalmente vai descobrir toda a verdade sobre Maureen. Depois dos eventos de Woodsboro e no campus universitário, Sidney e o pai se isolam do mundo e ela começa a trabalhar num serviço de atendimento para mulheres vítimas de abuso. Ajudar os outros é uma forma de ajudar a si mesma.
Seu fantasma a encontra novamente, mas dessa vez os dois possuem muito em comum, são frutos da mesma ferida aberta. O problema do seu inimigo e irmão é que ele não entendeu a dor de Maureen como deveria, ele a culpou em muitos níveis e ela era apenas uma vítima. A verdade sobre a mãe apazigua o coração de Sidney e ela está pronta para deixar tudo para trás.
O que sabemos sobre ela depois, no quarto filme é que se reinventou. Cansada de ser a vítima, Sidney se reescreveu (literalmente, através de seu livro) e tomou de volta as rédeas de sua vida. Ele é uma mulher completa e confiante. Enfrentar o fantasma depois disso, não foi tão desafiador.
É o que eu estou tentando fazer a cada dia que passa. É o que muitas vítimas de abusos tentam fazer a cada dia. Assim como a jornada de Sidney, não é fácil passar por todas as emoções e sobreviver aos nossos fantasmas. Mas é preciso que em algum momento nós nos reinventemos. Isso é dito àquelas de nós que conseguem sobreviver à violência. Muitas não terão essa oportunidade e isso é terrível.
Pânico é apenas um filme, ninguém morre e é ferido de verdade nele. A vida real é bem mais cruel. Eu desejo a você que está lendo isso e se encontra em perigo, que consiga ajuda e se salve. Que você sobreviva.
Assim como Sidney Prescott saiu da escuridão e renasceu, nós também podemos. Quando estivermos prontas, nós podemos escrever outra história e seguir em frente. Nós podemos matar nossos fantasmas. Vai demorar e muitas vezes vamos duvidar de nossa capacidade. Não duvide, a gente consegue.
Eu procurei suporte em um filme de terror para escrever sobre o que passei e tentar deixar isso para trás. Ache alguma coisa que te faça sentir como você mesma e use isso para se fortalecer. Confie em alguém para dividir sua história, amigos e familiares ou até mesmo eu.
As palavras podem te salvar.









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