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Natal Sangrento: Um Slasher Atualizado
Antes do Halloween de
John Carpenter ser lançado em 1978, a indústria cinematográfica canadense já
havia produzido seu próprio slasher com temática de feriado, o natalino Black
Christmas de 1974. O filme entitulado aqui como Natal Negro ou Natal Sangrento
gerou uma série de continuações diretas e indiretas e mais recentemente ganhou
um remake pela Blumhouse, lançado no final de 2019, chegando por aqui em 2020.
O longa dirigido por
Sophia Takal (que comandou o segmento de ano-novo "New Year, New Me" da série antológica Into the
Dark), e também co-escrito por ela, não recebeu muita atenção no ano passado,
mas o seu original não é exatamente uma grande estrela entre os slashers mundo afora.
Não sendo fã do
original ou mesmo do remake anterior de 2006, eu pude assistir este novo sem
apego saudosista algum e logo nas primeiras cenas ele me cativou.
Filmes em geral podem
optar por serem discretos com suas analogias ou explícitos, a escolha de Takal
é partir direto pro ataque. No filme, jovens mulheres estudantes do campus da
universidade milenar Hawthorne College passam a ser mortas por um assassino que
usa a alcunha do fundador da instituição para se esconder.
Sem muita sutileza (e
isso não é necessariamente algo ruim) a diretora quer denunciar o machismo
imbricado em instituições de ensino e na sociedade como um todo. Na primeira
cena do filme temos uma moça andando sozinha à noite, ela suspeita que está
sendo seguida e pega as chaves de casa segurando-as como um soco inglês
improvisado (algo feito cotidianamente por muitas mulheres), o clima é
agoniante por ser familiar e sem desperdiçar tempo narrativo ela nos mostra que
tem plena consciência de que mensagem seu filme quer transmitir.
O filme todo se passa
em um campus universitário e uma googlada
básica nos permite saber que o nível de estupros e assédios contra mulheres
nesses espaços é praticamente uma epidemia, caso queiram saber mais recomendo
este texto da Vice. Sophia Takal usa esse ambiente, agressivo contra as
mulheres por si só, como pano de fundo para sua trama.
As protagonistas da
produção tem suas lutas pessoais contra o patriarcado institucional, Riley
(Imogen Potts) foi estuprada por um membro da fraternidade de boys lixo da universidade, comandada
pelo professor Gelson (Cary Elwes), enfrentando ele mesmo acusações e uma
petição para sua retirada do cargo da aluna e amiga de Riley, Jesse (Aleyse Shannon).
As jovens não são do tipo que dá descanso para discursos preconceituosos de
nenhuma forma (o que pode soar panfletário no início, mas ao longo da narrativa
se ajusta) e isso as torna alvos dos homens da universidade, exceto pelo jovem
Landon (Caleb Eberhardt) que ganha certa simpatia do grupo.
Entrando na linha dos
spoilers agora (se você não quer saber nada, assista o filme e depois leia o
texto), o trecho final da produção que passa do real para o sobrenatural pode
desagradar quem esperava algo mais pé no chão e eu compreendo a resistência,
mas isso é mero detalhe.
Riley e suas amigas acabam descobrindo que o busto de pedra de Hawthorne, o fundador da universidade (e suprassumo dos piores preconceitos da humanidade), possui qualidades mágicas capazes de transformar rapazes em machistinhas ferrenhos com sede de sangue feminino (ok, mais machistinhas). Depois de algumas mortes e revelações, o único homem inocente e que permanece ao lado das nossas heroínas é Landon (note que ele também é o único homem negro presente na produção, ao passo que todos os vilões são brancos e isso não está ali por acaso).
Riley e suas amigas acabam descobrindo que o busto de pedra de Hawthorne, o fundador da universidade (e suprassumo dos piores preconceitos da humanidade), possui qualidades mágicas capazes de transformar rapazes em machistinhas ferrenhos com sede de sangue feminino (ok, mais machistinhas). Depois de algumas mortes e revelações, o único homem inocente e que permanece ao lado das nossas heroínas é Landon (note que ele também é o único homem negro presente na produção, ao passo que todos os vilões são brancos e isso não está ali por acaso).
O fato de que não
existe apenas um assassino também cria um ar maior de perigo, porque
nos passa a sensação de que poderia ser qualquer homem, não devemos confiar em
nenhum deles. Exatamente o que vítimas de abuso sentem sobre os agressores.
Ver a protagonista se
empoderar depois da terrível violência que sofreu é tremendamente libertador
para as mulheres que já passaram por situações semelhantes.
Há ainda quem ache o
filme meio bobo e tudo bem, eu nunca disse que ele é perfeito. Alguns pontos
podiam ser melhor trabalhados, mas isso não deixa ele menos divertido. É sempre
bom ver homens imbecis se dando mal e morrendo pela mão de mulheres.




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