Aviso: Contém gatilhos para estupro e violência contra a mulher.
O subgênero rape and revenge tem que acabar. É um
artifício pobre, problemático e totalmente fetichizado. Os diretores e
roteiristas de filmes como I Spit on Your
Grave (bem como de seus remakes e sequências) não tem nenhuma sensibilidade
para trabalhar com um tema tão complicado e acabam fazendo um
pornô de estupro e assassinato que é intragável de assistir se você for mulher.
Usar estupro como motivação para a ação feminina é um cliché que homens parecem
adorar e isso tem que parar.
Eu mesma, quase não
assisti à Revenge por medo de ser atormentada por esses fatores. Isso mudou
quando as primeiras resenhas do filme saíram.
Dito isso, o que tem
de diferente em Revenge?
2. A Mudança Necessária em Revenge:
Começando pelo óbvio,
o filme tem uma mulher no comando. Coralie Fargeat além de dirigir a produção
também a roteiriza e isso faz toda a diferença.
Ao contrário de I Spit On Your Grave, em Revenge a cena
de estupro dura pouco tempo e acontece off
screen tentando evitar ao máximo os gatilhos visuais e a erotização do
estupro.
![]() |
| As cores são parte importante da identidade visual de Revenge. |
Além disso, Coralie é
uma diretora muito mais competente do que os homens que fizeram os filmes acima
citados. Seu filme é estiloso e bem feito, a fotografia é quente referenciando
ao cinema explotation, as cores são
fortes e simbólicas e as técnicas de filmagem são mais sofisticadas.
Sendo assim, Revenge
se torna o rape and revenge definitivo
do cinema, não é necessário fazer mais nenhum filme do subgênero (muito embora
uma sequência direta de I Spit On Your Grave já esteja preparada, com a filha da
protagonista original, o que só prova o mau gosto desses filmes).
3. Quando a Vingança é Simétrica:
Um ponto que me chamou
muito a atenção no filme de Coralie é como ela relaciona vingança e simetria de
maneira visual, para evocar um tipo de justiça divina nas ações de sua
protagonista.
![]() |
| Matilda Lutz como Jen. |
A Jennifer (Matilda
Lutz, ótima) de Coralie é uma mulher jovem e vibrante, cheia de vida e
abertamente sexual, mas nada em seu comportamento é usado como justificativa
para a violência que ela sofre. Passando um tempo com o namorado Richard em um
deserto, acompanhada com dois amigos do sujeito Dimitri e Stanley, ela se
diverte e age com a liberdade que tem direito, mas obviamente os homens
entendem tudo como uma oferta sexual.
No dia seguinte
aproveitando-se da ausência de Richard, Stanley estupra Jen. A cena é grotesca
e triste, como deveria. Antes de começar a violência Stanley é interrompido momentaneamente
por Dimitri que fica parado na porta olhando em silêncio, logo em seguida
virando as costas e saindo sem fazer nada. Homens protegem outros homens,
nenhuma surpresa.
![]() |
| Jen lutando por sua vida e por sua sanidade. |
Quando Richard
retorna, Jen pede para ir embora o que ele recusa, os dois discutem e ele bate
na moça. Com medo, Jen corre para o deserto depois de ameaçar contar à esposa
de Richard sobre o caso deles e das suas falcatruas criminosas. Ela é seguida
pelos três, mas é aquele em quem ela confiava que a empurra para a morte.
Um galho atravessa a
lateral de seu abdômen na queda e os homens pensam que ela está morta, mas não
está. Jen acorda e consegue se recuperar minimamente.
Não demora até eles
descobrirem o fato e reiniciarem a perseguição, então o filme vira um banho de
sangue digno do new french extremity.
Sendo Coralie uma
ótima diretora, ela faz desses atos de vingança pequenos momentos de referência
visual às violências que Jen sofreu.
4. A Cada Dívida o Pagamento Merecido:
O primeiro homem que
Jen consegue matar é Dimitri, ela enfia uma faca em seu olho e o larga na água.
Dimitri era o observador. Ela apenas assistia a moça enquanto ela andava e
dançava. No momento em que ela era violentada, ele continuou apenas olhando. Foram
os olhos de Dimitri que feriram Jen e foi pelos olhos que ele morreu.
A segunda morte é a de
Stanley, mesmo armada é uma luta difícil para Jen porque ela é uma pessoa
comum. Na cena, ela atira à distância nele e acerta em seu ombro, mas também é
ferida. Na fuga ela quebra uma lanterna que carregava consigo e Stanley pisa em
um caco de vidro.
A câmera foca em seu
pé machucado, a abertura vertical no membro é semelhante à abertura vaginal e
bem no meio do corte há um caco penetrando a pele. Não é preciso dizer mais,
porque já é forte o suficiente relacionar essas duas cenas. Stanley é morto de
maneira rápida e brutal exatamente como feriu Jen.
![]() |
| Richard é o último desafio de Jen. |
Por fim, mas não menos
simbólico temos Richard. Jen vai até a casa onde o homem está tomando um banho,
ele percebe a presença de alguém e temos uma longa perseguição por cômodos e
corredores encharcados de sangue. Jen atira em Richard na lateral de seu
abdômen, onde ela teve o galho atravessado. E, o tiro fatal é em seu peito,
mais precisamente em seu coração. Richard foi machucado nos dois lugares onde
machucou Jen.
A vingança é
simétrica.
![]() |
| Jen mirando na cara dos clichés. |
Coralie Fargeat criou uma obra prima do terror e o rape and revenge feminista necessário para nossa geração. Agora, seria ótimo se finalmente deixássemos esse tema morrer, reparando a banalização e prazer voyeurístico que aplicaram a uma violência que é cometida a mulheres no mundo todo e ao tempo todo. Mesmo sabendo que isso não vai acontecer, pelo menos eu quero fazer você pensar de novo sobre esses filmes e, quem sabe, deixar de ser a audiência necessária para sua perpetuação.
O filme indie de suspense e drama “A Horrible
Way To Die” foi lançado no circuito internacional em 2011 e fez certo
burburinho em festivais. O filme tem a proposta de olhar para o tema de serial
killer de um jeito mais sensível e realista o que em tempos de massacres em
escolas, cinemas e boates que são ovacionados por malucos e mal retratados pela
mídia sensacionalista, é uma ótima ação.
Na história da
produção nós conhecemos Sarah (Amy Seimetz, numa atuação emocionante e natural)
uma moça que está lutando para se livrar do vício em álcool e das memórias
sobre seu ex-namorado, Garrick Turrel (A.J.Bowen charmoso e vulnerável,
simplesmente excelente). Há algum tempo Garrick foi para a cadeia através de
uma denúncia de Sarah, ela descobriu “apenas” que o namorado era um assassino
em série. Tente lidar com isso sem álcool ou drogas, é totalmente compreensível
que Sarah chegasse ao ponto em que chegou.
Quando ela finalmente
está conseguindo deixar o alcoolismo e as lembranças para trás, frequentando
reuniões do AA e se permitindo conhecer outro homem, Garrick foge da prisão
durante uma transferência.
1. Aqueles Que Testemunham A Morte:
![]() |
| Amy Seimetz como Sarah. |
O primeiro acerto de
“A Horrible Way To Die” é retratar a situação pelo ponto de vista de Sarah, nós
a vemos, sentimos o sofrimento dela, o choque que sentiu ao descobrir quem
Garrick era, tudo é extremamente pesado.
O roteiro tenta fazer
um paralelo entre Garrick e a bebida para Sarah. Algo que ela precisa deixar
para trás, um vício que ela precisa superar, que não faz bem a ela. A tentação de
beber é a mesma que a invade quando ela se lembra do relacionamento com
Garrick, de quem ela claramente sente saudades, mesmo que não devesse.
O filme mostra um lado
pouco explorado por filmes sobre assassinos em série: aqueles que os conheciam
como um filho, vizinho, irmão, amigo, namorado (a) ou marido/esposa. São eles (junto com a
família das vítimas, mas num outro viés) que tem que lidar diariamente com a
realidade social da violência cometida por esse assassino. É como se um pouco
de culpa caísse sobre eles, afinal eles não viram o que estava escondido, parte
deles se sente responsável pelo que houve e são eles que precisam lidar com o
julgamento no dia a dia.
Não por menos, Sarah
se inscreve no programa de proteção a testemunhas e se muda, tentando
recomeçar. A solidão dela é muito presente e sufocante.
O segundo ponto a se
destacar no filme é como eles resolveram representar o assassino. Garrick
Turrel não é um Hannibal Lecter sofisticado e intelectual, muito menos é um
predador descarado como Ted Bundy, Turrel é um homem extremamente normal. Ele
não é perturbador e assustador, ele é terrivelmente humano.
Sempre que ele mata
parece algo que ele não queria fazer. Suas mãos tremem e se afastam do
corpo, como se negassem o ocorrido e quisessem fugir. Garrick Turrel é um
assassino, mas isso não é uma coisa que ele possa controlar. Mais uma vez temos
a temática do vício como metáfora, é uma compulsão da qual ele se arrepende no
segundo seguinte em que se deixa levar. No final do filme, Garrick faz um monólogo
sobre a prisão, falando de como gostava de estar lá porque não havia armas,
ninguém que ele pudesse ferir, um verdadeiro exercício de abstinência
O roteiro humaniza
Garrick, mas não de um jeito que desculpe suas ações ou que o vitimize mais do que
as vítimas. Ele é humano. Não tem nenhuma glamourização de seus atos, quando
ele mata tudo é cru e direto, sem nenhuma admiração pelo ato e ainda assim, ele
não parece um monstro. Retrata-lo como um e fazer um show ao redor de seus
crimes é papel da mídia, outro elemento muito importante nesse filme.
O último elemento que
se sobressai na produção é como as pessoas não envolvidas diretamente no crime lidam
com o fato.
Durante o tempo na
cadeia, Garrick recebeu um número imenso de cartas e seguidores. Ele realmente
não parece admirar o fato nem um pouco. No entanto, essa celebração do
assassino vai ter consequências imensas na vida dele e de Sarah e aqui vamos
entrar em spoilers.
Quando começa a
frequentar o AA, Sarah conhece um homem chamado Kevin (Joe Swanberg, o elo mais
fraco do trio de protagonistas), ele a aborda e parece interessado em sair com ela,
que depois de pensar um pouco acaba aceitando. Com o tempo eles se aproximam e tudo
está indo bem, mas Garrick fugiu da prisão e está indo até Sarah.
Quando ela se dá conta
do fato conta a Kevin quem era seu ex-namorado e os dois decidem se refugiar
numa cabana dos avós dele.
O final de “A Horrible
Way To Die” é uma das coisas mais geniais que eu já vi. Quando chegam ao tal
lugar, tem dois amigos de Kevin os aguardando e então Sarah descobre que cara faz parte do culto
de seguidores de Garrick. Tudo foi apenas uma armadilha para pega-la e puni-la
por ter colocado o ídolo deles na cadeia.
Os três amarram Sarah
e falam coisas terríveis sobre ela. Há muitos subtextos aqui: a mídia enalteceu
Garrick criando uma aura especial em torno dele e incentivando mentes
distorcidas a adora-lo como um herói e ver Sarah como a vilã. Mesmo que tenham
sido as mãos de Turrel que mataram, é ela quem leva a culpa (culpabilização de
mulheres é um evento internacional).
Pegue os eventos de
Suzano, basta ver como a mídia lidou com o caso para saber que isso não é nada
impossível de acontecer. A mídia precisa rever seu modo de noticiar crimes do
tipo para não exaltar os assassinos e criar novos inspirados pelo “sucesso” dos
antecessores.
Garrick por fim chega
até eles, e nós descobrimos que os três mandavam cartas para Turrel na cadeia
avisando sobre o que fariam a Sarah e que eles são a razão pela qual ele
resolveu fugir. Ele não quer Sarah, quer aqueles três imbecis.
![]() |
| Garrick Turrel e sua jornada após a fuga da prisão não é bem o que parece. |
A fala de Garrick é o
ponto alto do filme e da atuação de A.J.Bowen. O homem parece ter mais
consciência sobre o peso dos seus atos do que três homens que nunca mataram
ninguém (não que a gente saiba). Ele sabe que o que fez não é uma coisa boa e
muito menos culpa da ex-namorada. Há certos pontos no monólogo que cabiam até
numa interpretação sobre relacionamentos abusivos.
Garrick mata os três
sujeitos e acaba sendo ferido por um deles, mas consegue libertar Sarah. Há uma
expectativa no reencontro dos dois, mas ela apenas olha de relance para Garrick
e corre. Não há mais nada a dizer ou fazer. Acabou.
“A Horrible Way To Die”
é uma obra prima do suspense, não só porque traz uma trama interessante e
atual, mas porque trabalha com seus temas de forma responsável e sensível. Não
enaltece atos de violência, foca nas consequências desses atos, no mundo das
pessoas que os amavam, na humanidade inevitável dos assassinos (sem tirar sua
culpa) e na responsabilidade de cada um para lidar melhor com esses ocorridos.
Se tivermos sorte, o
filme sobre Ted Bundy com Zac Efron e Lily Collins conseguirá o mesmo, mas eu
acho difícil que o faça com o mesmo brilhantismo de “A Horrible Way To Die”.
Eu gosto de monstros (nossa, que surpresa). Adoro ver artistas que
criam espécies novas e diferentes em seus filmes, e adoro ainda mais quando a
abordagem que dão para essas criaturas não é a de mera vilania ou ódio animal,
sei que é legal ver isso também, mas é admirável que tenham pessoas dispostas a
dar voz própria aos monstros que apresentam.
Consigo pensar em dois diretores que fazem isso com excelência:
Guillermo Del Toro e Clive Barker. Eles são capazes de desenhar em suas mentes
todo um sortilégio de monstruosidades anatomicamente bizarras, mas o tratamento
que são para elas em suas narrativas é belo e poético, respeitoso até, eu
diria.
Seus monstros não são colocados na história para servirem de saco de
pancadas dos mocinhos, para reforçarem a ideia do normal e correto superando a
bestialidade, estão lá para nos lembrar de que o que nos faz humanos está muito
além das aparências de normalidade. Belas pessoas podem ser monstruosas,
monstros horrendos podem ser belos.
![]() |
| Boone descobre Midiam. |
Em Raça das Trevas, filme escrito e dirigido por Barker baseado em um
livro seu (não há nada que mude a minha certeza de que quem melhor adapta as obras
de Clive Barker é ele mesmo), temos a melhor amostra desse espírito de abraçar
o monstruoso com mente e coração abertos.
Na trama do filme, acompanhamos o jovem Aaron Boone, um cara comum que
começa a ter sonhos com criaturas estranhas e um lugar chamado Midiam,
preocupando a si mesmo e à namorada Lori.
Boone começa a frequentar um psicólogo para entender a origem de seus
pesadelos, o doutor Decker (interpretado por ninguém menos do que David
Cronenberg, que voz suave ele tem gente). Decker tem absoluta certeza de que
Boone é um assassino em série que a polícia tem procurado feito louca. O que
Boone desconhece é que o próprio Decker é o assassino e que pretende fazer
Boone ser preso por seus crimes.
Decker manipula a mente de Aaron, dá remédios psicotrópicos que lhe
causam alucinações, para que o rapaz comece a engolir suas mentiras. Boone vai
parar em um hospital onde conhece um sujeito estranho, que fala com ele sobre
Midiam, descobrindo assim a sua localização, Boone então resolve ir até lá.
Paralelamente a isso, Decker delata Boone para a polícia que está indo até o
hospital prende-lo.
![]() |
| David Cronenberg como o manipulador e impiedoso Dr. Philipp Decker |
Boone chega até Midiam e encontra alguns de seus habitantes, sendo atacado por um deles. Na fuga dá de cara com a polícia e Decker, que o alvejam com tiros. Por conta da mordida no ataque, Boone não morre, se transforma, escapando do necrotério e voltando para Midiam.
Midiam é o lugar dos rejeitados, dos monstros, daqueles que não podem
viver entre os “normais” e agora Boone é um deles. Para ficar na cidade, ele
precisa negar toda a sua vida anterior e ele aceita isso.
Entretanto, Lori não está convencida da culpa ou da morte de Boone e
sozinha resolve ir até Midiam mesmo desconhecendo onde esse lugar fica. Com a
ajuda de alguns moradores de locais próximos a Midiam, ela consegue descobrir
onde Boone está. Forçando-o a quebrar seu juramento de abandonar sua antiga
vida quando ela fica em perigo.
Lori não parece se importar muito com a monstruosidade de Midiam,
ainda que isso a apavore algumas vezes, ela quer ficar com Boone, ela o ama
como for. Lori é a personagem mais sub-trabalhada em Raça das Trevas, mas não é
de todo ruim já que ela representa a parte humana simpatizante dos “anormais”
(vou usar muitas aspas nesse texto).
![]() |
| Lori e sua jornada para salvar o amado. |
Decker, que estava seguindo Lori em suas investigações, porque também
não se convencera da morte de Boone, acaba encontrando Midiam e, por
consequência, Boone e seus novos conhecidos. Decker foge da cidade ainda chocado com a descoberta de quem vive lá e resolve retornar com apoio para destruir Midiam e Boone de uma vez por todas.
Os habitantes de Midiam não são monstros no que tange suas
personalidades e convicções. São apenas pessoas com corpos diferentes, com
capacidades sobre-humanas. A maioria deles é doce, inteligente e corajosa. Eles
não matam sem necessidade e não odeiam quem não os ameaça. Ao contrário dos
humanos ditos “normais”.
![]() |
| Alguns habitantes de Midiam. |
Decker se toma como um agente da ordem, em uma fala ele se expõe como
aquele que está na terra para limpa-la das impurezas como outros antes dele já
fizeram. Há muitos subtextos religiosos em Raça das Trevas, mas isso é para
outro momento. O psicólogo se torna o representante máximo das forças
opositoras de Midiam.
Colocando os dois lados em perspectiva nós temos: os habitantes de
Midiam, seres que foram rejeitados e odiados sem nenhuma razão, temos os
indesejados, aqueles que queremos varrer para debaixo do tapete (ou para
debaixo da terra, nesse caso). Quem seriam nossos “midinianos”? Todos os que
não são considerados “cidadãos corretos”. Prostitutas, gays, negros, gordos, pessoas
com deficiência, mendigos, toda a sorte de indivíduos que nem consideramos como
pessoas.
No livro de Linda
Badley, “Writing Horror and The Body: The Fiction of Stephen King, Clive Barker,
and Anne Rice (Contributions to the Study of Popular Culture)”, há um capítulo
dedicado à Clive Barker no qual a autora afirma o seguinte:
“Como King reinventou a novela de terror, Barker revitalizou o conto de terror, realocando-o no icônico, no grotesco e o irônico. Também o fez um veículo para ideias, forçando um gênero ‘reacionário’ a encarar tabus e a abrir-se a temas controversos: questões de gênero, feminismo, violência contra a mulher, homossexualidade, AIDS, a decadência urbana, a pornografia e a censura.”
Raça das Trevas é uma amálgama desses valores.
Do outro lado, nós temos os “defensores da ordem e dos bons costumes”:
policiais, homens brancos e héteros, religiosos e psicólogos. Na nossa versão,
não seria tão diferente assim. Não que intrinsecamente policiais, religiosos e
psicólogos sejam más pessoas, mas de certo modo cabem a eles manter a “sujeira”
e o desvio longe dos “bons e normais”.
Na parte final de Raça das Trevas nós temos o banho de sangue gerado
por uma quase guerra civil entre Midiam e as autoridades. No início, os
“midinianos” não querem resistir ao enfrentamento, mas Boone os convence a se
oporem e lutarem, tornando-se seu líder. É bem o que acontece com as forças de
resistência em nossa realidade. É preciso que lutemos ou nada nunca vai mudar
para melhor. Ninguém nos protegerá a não ser nós mesmos.
Raça das Trevas, e a ficção de Clive Barker como um todo, estão aí
para mostrar que nem sempre o terror e os monstros são metáforas que reforçam a
necessidade do normal e do moralmente aceito. Nem sempre os monstros devem ser
derrotados e é bem possível que eles sequer sejam monstros mesmo.
![]() |
| O verdadeiro monstro de Raça das Trevas. |
As criaturas de tentáculos, espinhos e chifres não eram o verdadeiro
mal a ser detido em Raça das Trevas, esse se escondia sob o um rosto belo e uma
vida totalmente dentro dos moldes que aceitamos e incentivamos sem questionar.
Midiam não era o Inferno que guardava os demônios longe da humanidade, era um refúgio, a Terra Prometida para os sem lar e afeto. À essa visão, nós somos os vilões da história, não eles.
Está mais do que na hora de revertermos nossos padrões.
















































