Raça das Trevas (Nightbreed) e o Medo do Diferente

by - maio 02, 2019




Eu gosto de monstros (nossa, que surpresa). Adoro ver artistas que criam espécies novas e diferentes em seus filmes, e adoro ainda mais quando a abordagem que dão para essas criaturas não é a de mera vilania ou ódio animal, sei que é legal ver isso também, mas é admirável que tenham pessoas dispostas a dar voz própria aos monstros que apresentam.

Consigo pensar em dois diretores que fazem isso com excelência: Guillermo Del Toro e Clive Barker. Eles são capazes de desenhar em suas mentes todo um sortilégio de monstruosidades anatomicamente bizarras, mas o tratamento que são para elas em suas narrativas é belo e poético, respeitoso até, eu diria.

Seus monstros não são colocados na história para servirem de saco de pancadas dos mocinhos, para reforçarem a ideia do normal e correto superando a bestialidade, estão lá para nos lembrar de que o que nos faz humanos está muito além das aparências de normalidade. Belas pessoas podem ser monstruosas, monstros horrendos podem ser belos.

Boone descobre Midiam.

Em Raça das Trevas, filme escrito e dirigido por Barker baseado em um livro seu (não há nada que mude a minha certeza de que quem melhor adapta as obras de Clive Barker é ele mesmo), temos a melhor amostra desse espírito de abraçar o monstruoso com mente e coração abertos.

Na trama do filme, acompanhamos o jovem Aaron Boone, um cara comum que começa a ter sonhos com criaturas estranhas e um lugar chamado Midiam, preocupando a si mesmo e à namorada Lori.

Boone começa a frequentar um psicólogo para entender a origem de seus pesadelos, o doutor Decker (interpretado por ninguém menos do que David Cronenberg, que voz suave ele tem gente). Decker tem absoluta certeza de que Boone é um assassino em série que a polícia tem procurado feito louca. O que Boone desconhece é que o próprio Decker é o assassino e que pretende fazer Boone ser preso por seus crimes.

Decker manipula a mente de Aaron, dá remédios psicotrópicos que lhe causam alucinações, para que o rapaz comece a engolir suas mentiras. Boone vai parar em um hospital onde conhece um sujeito estranho, que fala com ele sobre Midiam, descobrindo assim a sua localização, Boone então resolve ir até lá. Paralelamente a isso, Decker delata Boone para a polícia que está indo até o hospital prende-lo.

David Cronenberg como o manipulador e impiedoso Dr. Philipp Decker

Boone chega até Midiam e encontra alguns de seus habitantes, sendo atacado por um deles. Na fuga dá de cara com a polícia e Decker, que o alvejam com tiros. Por conta da mordida no ataque, Boone não morre, se transforma, escapando do necrotério e voltando para Midiam. 

Midiam é o lugar dos rejeitados, dos monstros, daqueles que não podem viver entre os “normais” e agora Boone é um deles. Para ficar na cidade, ele precisa negar toda a sua vida anterior e ele aceita isso.

Entretanto, Lori não está convencida da culpa ou da morte de Boone e sozinha resolve ir até Midiam mesmo desconhecendo onde esse lugar fica. Com a ajuda de alguns moradores de locais próximos a Midiam, ela consegue descobrir onde Boone está. Forçando-o a quebrar seu juramento de abandonar sua antiga vida quando ela fica em perigo.

Lori não parece se importar muito com a monstruosidade de Midiam, ainda que isso a apavore algumas vezes, ela quer ficar com Boone, ela o ama como for. Lori é a personagem mais sub-trabalhada em Raça das Trevas, mas não é de todo ruim já que ela representa a parte humana simpatizante dos “anormais” (vou usar muitas aspas nesse texto).

Lori e sua jornada para salvar o amado.

Decker, que estava seguindo Lori em suas investigações, porque também não se convencera da morte de Boone, acaba encontrando Midiam e, por consequência, Boone e seus novos conhecidos. Decker foge da cidade ainda chocado com a descoberta de quem vive lá e resolve retornar com apoio para destruir Midiam e Boone de uma vez por todas.

Os habitantes de Midiam não são monstros no que tange suas personalidades e convicções. São apenas pessoas com corpos diferentes, com capacidades sobre-humanas. A maioria deles é doce, inteligente e corajosa. Eles não matam sem necessidade e não odeiam quem não os ameaça. Ao contrário dos humanos ditos “normais”.

Alguns habitantes de Midiam.

Decker se toma como um agente da ordem, em uma fala ele se expõe como aquele que está na terra para limpa-la das impurezas como outros antes dele já fizeram. Há muitos subtextos religiosos em Raça das Trevas, mas isso é para outro momento. O psicólogo se torna o representante máximo das forças opositoras de Midiam.

Colocando os dois lados em perspectiva nós temos: os habitantes de Midiam, seres que foram rejeitados e odiados sem nenhuma razão, temos os indesejados, aqueles que queremos varrer para debaixo do tapete (ou para debaixo da terra, nesse caso). Quem seriam nossos “midinianos”? Todos os que não são considerados “cidadãos corretos”. Prostitutas, gays, negros, gordos, pessoas com deficiência, mendigos, toda a sorte de indivíduos que nem consideramos como pessoas.

No livro de Linda Badley, “Writing Horror and The Body: The Fiction of Stephen King, Clive Barker, and Anne Rice (Contributions to the Study of Popular Culture)”, há um capítulo dedicado à Clive Barker no qual a autora afirma o seguinte:


“Como King reinventou a novela de terror, Barker revitalizou o conto de terror, realocando-o no icônico, no grotesco e o irônico. Também o fez um veículo para ideias, forçando um gênero ‘reacionário’ a encarar tabus e a abrir-se a temas controversos: questões de gênero, feminismo, violência contra a mulher, homossexualidade, AIDS, a decadência urbana, a pornografia e a censura.”


Raça das Trevas é uma amálgama desses valores.

Do outro lado, nós temos os “defensores da ordem e dos bons costumes”: policiais, homens brancos e héteros, religiosos e psicólogos. Na nossa versão, não seria tão diferente assim. Não que intrinsecamente policiais, religiosos e psicólogos sejam más pessoas, mas de certo modo cabem a eles manter a “sujeira” e o desvio longe dos “bons e normais”.

Na parte final de Raça das Trevas nós temos o banho de sangue gerado por uma quase guerra civil entre Midiam e as autoridades. No início, os “midinianos” não querem resistir ao enfrentamento, mas Boone os convence a se oporem e lutarem, tornando-se seu líder. É bem o que acontece com as forças de resistência em nossa realidade. É preciso que lutemos ou nada nunca vai mudar para melhor. Ninguém nos protegerá a não ser nós mesmos.

Raça das Trevas, e a ficção de Clive Barker como um todo, estão aí para mostrar que nem sempre o terror e os monstros são metáforas que reforçam a necessidade do normal e do moralmente aceito. Nem sempre os monstros devem ser derrotados e é bem possível que eles sequer sejam monstros mesmo.

O verdadeiro monstro de Raça das Trevas.

As criaturas de tentáculos, espinhos e chifres não eram o verdadeiro mal a ser detido em Raça das Trevas, esse se escondia sob o um rosto belo e uma vida totalmente dentro dos moldes que aceitamos e incentivamos sem questionar.

Midiam não era o Inferno que guardava os demônios longe da humanidade, era um refúgio, a Terra Prometida para os sem lar e afeto. À essa visão, nós somos os vilões da história, não eles.

Está mais do que na hora de revertermos nossos padrões.

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