A Horrible Way To Die e Os Ecos da Violência
O filme indie de suspense e drama “A Horrible
Way To Die” foi lançado no circuito internacional em 2011 e fez certo
burburinho em festivais. O filme tem a proposta de olhar para o tema de serial
killer de um jeito mais sensível e realista o que em tempos de massacres em
escolas, cinemas e boates que são ovacionados por malucos e mal retratados pela
mídia sensacionalista, é uma ótima ação.
Na história da
produção nós conhecemos Sarah (Amy Seimetz, numa atuação emocionante e natural)
uma moça que está lutando para se livrar do vício em álcool e das memórias
sobre seu ex-namorado, Garrick Turrel (A.J.Bowen charmoso e vulnerável,
simplesmente excelente). Há algum tempo Garrick foi para a cadeia através de
uma denúncia de Sarah, ela descobriu “apenas” que o namorado era um assassino
em série. Tente lidar com isso sem álcool ou drogas, é totalmente compreensível
que Sarah chegasse ao ponto em que chegou.
Quando ela finalmente
está conseguindo deixar o alcoolismo e as lembranças para trás, frequentando
reuniões do AA e se permitindo conhecer outro homem, Garrick foge da prisão
durante uma transferência.
1. Aqueles Que Testemunham A Morte:
![]() |
| Amy Seimetz como Sarah. |
O primeiro acerto de
“A Horrible Way To Die” é retratar a situação pelo ponto de vista de Sarah, nós
a vemos, sentimos o sofrimento dela, o choque que sentiu ao descobrir quem
Garrick era, tudo é extremamente pesado.
O roteiro tenta fazer
um paralelo entre Garrick e a bebida para Sarah. Algo que ela precisa deixar
para trás, um vício que ela precisa superar, que não faz bem a ela. A tentação de
beber é a mesma que a invade quando ela se lembra do relacionamento com
Garrick, de quem ela claramente sente saudades, mesmo que não devesse.
O filme mostra um lado
pouco explorado por filmes sobre assassinos em série: aqueles que os conheciam
como um filho, vizinho, irmão, amigo, namorado (a) ou marido/esposa. São eles (junto com a
família das vítimas, mas num outro viés) que tem que lidar diariamente com a
realidade social da violência cometida por esse assassino. É como se um pouco
de culpa caísse sobre eles, afinal eles não viram o que estava escondido, parte
deles se sente responsável pelo que houve e são eles que precisam lidar com o
julgamento no dia a dia.
Não por menos, Sarah
se inscreve no programa de proteção a testemunhas e se muda, tentando
recomeçar. A solidão dela é muito presente e sufocante.
O segundo ponto a se
destacar no filme é como eles resolveram representar o assassino. Garrick
Turrel não é um Hannibal Lecter sofisticado e intelectual, muito menos é um
predador descarado como Ted Bundy, Turrel é um homem extremamente normal. Ele
não é perturbador e assustador, ele é terrivelmente humano.
Sempre que ele mata
parece algo que ele não queria fazer. Suas mãos tremem e se afastam do
corpo, como se negassem o ocorrido e quisessem fugir. Garrick Turrel é um
assassino, mas isso não é uma coisa que ele possa controlar. Mais uma vez temos
a temática do vício como metáfora, é uma compulsão da qual ele se arrepende no
segundo seguinte em que se deixa levar. No final do filme, Garrick faz um monólogo
sobre a prisão, falando de como gostava de estar lá porque não havia armas,
ninguém que ele pudesse ferir, um verdadeiro exercício de abstinência
O roteiro humaniza
Garrick, mas não de um jeito que desculpe suas ações ou que o vitimize mais do que
as vítimas. Ele é humano. Não tem nenhuma glamourização de seus atos, quando
ele mata tudo é cru e direto, sem nenhuma admiração pelo ato e ainda assim, ele
não parece um monstro. Retrata-lo como um e fazer um show ao redor de seus
crimes é papel da mídia, outro elemento muito importante nesse filme.
O último elemento que
se sobressai na produção é como as pessoas não envolvidas diretamente no crime lidam
com o fato.
Durante o tempo na
cadeia, Garrick recebeu um número imenso de cartas e seguidores. Ele realmente
não parece admirar o fato nem um pouco. No entanto, essa celebração do
assassino vai ter consequências imensas na vida dele e de Sarah e aqui vamos
entrar em spoilers.
Quando começa a
frequentar o AA, Sarah conhece um homem chamado Kevin (Joe Swanberg, o elo mais
fraco do trio de protagonistas), ele a aborda e parece interessado em sair com ela,
que depois de pensar um pouco acaba aceitando. Com o tempo eles se aproximam e tudo
está indo bem, mas Garrick fugiu da prisão e está indo até Sarah.
Quando ela se dá conta
do fato conta a Kevin quem era seu ex-namorado e os dois decidem se refugiar
numa cabana dos avós dele.
O final de “A Horrible
Way To Die” é uma das coisas mais geniais que eu já vi. Quando chegam ao tal
lugar, tem dois amigos de Kevin os aguardando e então Sarah descobre que cara faz parte do culto
de seguidores de Garrick. Tudo foi apenas uma armadilha para pega-la e puni-la
por ter colocado o ídolo deles na cadeia.
Os três amarram Sarah
e falam coisas terríveis sobre ela. Há muitos subtextos aqui: a mídia enalteceu
Garrick criando uma aura especial em torno dele e incentivando mentes
distorcidas a adora-lo como um herói e ver Sarah como a vilã. Mesmo que tenham
sido as mãos de Turrel que mataram, é ela quem leva a culpa (culpabilização de
mulheres é um evento internacional).
Pegue os eventos de
Suzano, basta ver como a mídia lidou com o caso para saber que isso não é nada
impossível de acontecer. A mídia precisa rever seu modo de noticiar crimes do
tipo para não exaltar os assassinos e criar novos inspirados pelo “sucesso” dos
antecessores.
Garrick por fim chega
até eles, e nós descobrimos que os três mandavam cartas para Turrel na cadeia
avisando sobre o que fariam a Sarah e que eles são a razão pela qual ele
resolveu fugir. Ele não quer Sarah, quer aqueles três imbecis.
![]() |
| Garrick Turrel e sua jornada após a fuga da prisão não é bem o que parece. |
A fala de Garrick é o
ponto alto do filme e da atuação de A.J.Bowen. O homem parece ter mais
consciência sobre o peso dos seus atos do que três homens que nunca mataram
ninguém (não que a gente saiba). Ele sabe que o que fez não é uma coisa boa e
muito menos culpa da ex-namorada. Há certos pontos no monólogo que cabiam até
numa interpretação sobre relacionamentos abusivos.
Garrick mata os três
sujeitos e acaba sendo ferido por um deles, mas consegue libertar Sarah. Há uma
expectativa no reencontro dos dois, mas ela apenas olha de relance para Garrick
e corre. Não há mais nada a dizer ou fazer. Acabou.
“A Horrible Way To Die”
é uma obra prima do suspense, não só porque traz uma trama interessante e
atual, mas porque trabalha com seus temas de forma responsável e sensível. Não
enaltece atos de violência, foca nas consequências desses atos, no mundo das
pessoas que os amavam, na humanidade inevitável dos assassinos (sem tirar sua
culpa) e na responsabilidade de cada um para lidar melhor com esses ocorridos.
Se tivermos sorte, o
filme sobre Ted Bundy com Zac Efron e Lily Collins conseguirá o mesmo, mas eu
acho difícil que o faça com o mesmo brilhantismo de “A Horrible Way To Die”.





0 comentários