A Horrible Way To Die e Os Ecos da Violência

by - maio 06, 2019



O filme indie de suspense e drama “A Horrible Way To Die” foi lançado no circuito internacional em 2011 e fez certo burburinho em festivais. O filme tem a proposta de olhar para o tema de serial killer de um jeito mais sensível e realista o que em tempos de massacres em escolas, cinemas e boates que são ovacionados por malucos e mal retratados pela mídia sensacionalista, é uma ótima ação.

Na história da produção nós conhecemos Sarah (Amy Seimetz, numa atuação emocionante e natural) uma moça que está lutando para se livrar do vício em álcool e das memórias sobre seu ex-namorado, Garrick Turrel (A.J.Bowen charmoso e vulnerável, simplesmente excelente). Há algum tempo Garrick foi para a cadeia através de uma denúncia de Sarah, ela descobriu “apenas” que o namorado era um assassino em série. Tente lidar com isso sem álcool ou drogas, é totalmente compreensível que Sarah chegasse ao ponto em que chegou.

Quando ela finalmente está conseguindo deixar o alcoolismo e as lembranças para trás, frequentando reuniões do AA e se permitindo conhecer outro homem, Garrick foge da prisão durante uma transferência.


1. Aqueles Que Testemunham A Morte:

Amy Seimetz como Sarah.

O primeiro acerto de “A Horrible Way To Die” é retratar a situação pelo ponto de vista de Sarah, nós a vemos, sentimos o sofrimento dela, o choque que sentiu ao descobrir quem Garrick era, tudo é extremamente pesado.

O roteiro tenta fazer um paralelo entre Garrick e a bebida para Sarah. Algo que ela precisa deixar para trás, um vício que ela precisa superar, que não faz bem a ela. A tentação de beber é a mesma que a invade quando ela se lembra do relacionamento com Garrick, de quem ela claramente sente saudades, mesmo que não devesse.

O filme mostra um lado pouco explorado por filmes sobre assassinos em série: aqueles que os conheciam como um filho, vizinho, irmão, amigo, namorado (a) ou marido/esposa. São eles (junto com a família das vítimas, mas num outro viés) que tem que lidar diariamente com a realidade social da violência cometida por esse assassino. É como se um pouco de culpa caísse sobre eles, afinal eles não viram o que estava escondido, parte deles se sente responsável pelo que houve e são eles que precisam lidar com o julgamento no dia a dia.

Não por menos, Sarah se inscreve no programa de proteção a testemunhas e se muda, tentando recomeçar. A solidão dela é muito presente e sufocante.


2. Aquele Que Mata:
 
A.J.Bowen interpreta o serial killer Garrick Turrel.

O segundo ponto a se destacar no filme é como eles resolveram representar o assassino. Garrick Turrel não é um Hannibal Lecter sofisticado e intelectual, muito menos é um predador descarado como Ted Bundy, Turrel é um homem extremamente normal. Ele não é perturbador e assustador, ele é terrivelmente humano.

Sempre que ele mata parece algo que ele não queria fazer. Suas mãos tremem e se afastam do corpo, como se negassem o ocorrido e quisessem fugir. Garrick Turrel é um assassino, mas isso não é uma coisa que ele possa controlar. Mais uma vez temos a temática do vício como metáfora, é uma compulsão da qual ele se arrepende no segundo seguinte em que se deixa levar. No final do filme, Garrick faz um monólogo sobre a prisão, falando de como gostava de estar lá porque não havia armas, ninguém que ele pudesse ferir, um verdadeiro exercício de abstinência

O roteiro humaniza Garrick, mas não de um jeito que desculpe suas ações ou que o vitimize mais do que as vítimas. Ele é humano. Não tem nenhuma glamourização de seus atos, quando ele mata tudo é cru e direto, sem nenhuma admiração pelo ato e ainda assim, ele não parece um monstro. Retrata-lo como um e fazer um show ao redor de seus crimes é papel da mídia, outro elemento muito importante nesse filme.


3. Aqueles Que Celebram A Morte:
 
Joe Swanberg como Kevin e Amy Seimetz.

O último elemento que se sobressai na produção é como as pessoas não envolvidas diretamente no crime lidam com o fato.

Durante o tempo na cadeia, Garrick recebeu um número imenso de cartas e seguidores. Ele realmente não parece admirar o fato nem um pouco. No entanto, essa celebração do assassino vai ter consequências imensas na vida dele e de Sarah e aqui vamos entrar em spoilers.

Quando começa a frequentar o AA, Sarah conhece um homem chamado Kevin (Joe Swanberg, o elo mais fraco do trio de protagonistas), ele a aborda e parece interessado em sair com ela, que depois de pensar um pouco acaba aceitando. Com o tempo eles se aproximam e tudo está indo bem, mas Garrick fugiu da prisão e está indo até Sarah.

Quando ela se dá conta do fato conta a Kevin quem era seu ex-namorado e os dois decidem se refugiar numa cabana dos avós dele.

O final de “A Horrible Way To Die” é uma das coisas mais geniais que eu já vi. Quando chegam ao tal lugar, tem dois amigos de Kevin os aguardando e então Sarah descobre que cara faz parte do culto de seguidores de Garrick. Tudo foi apenas uma armadilha para pega-la e puni-la por ter colocado o ídolo deles na cadeia.

Os três amarram Sarah e falam coisas terríveis sobre ela. Há muitos subtextos aqui: a mídia enalteceu Garrick criando uma aura especial em torno dele e incentivando mentes distorcidas a adora-lo como um herói e ver Sarah como a vilã. Mesmo que tenham sido as mãos de Turrel que mataram, é ela quem leva a culpa (culpabilização de mulheres é um evento internacional).

Pegue os eventos de Suzano, basta ver como a mídia lidou com o caso para saber que isso não é nada impossível de acontecer. A mídia precisa rever seu modo de noticiar crimes do tipo para não exaltar os assassinos e criar novos inspirados pelo “sucesso” dos antecessores.

Garrick por fim chega até eles, e nós descobrimos que os três mandavam cartas para Turrel na cadeia avisando sobre o que fariam a Sarah e que eles são a razão pela qual ele resolveu fugir. Ele não quer Sarah, quer aqueles três imbecis.

Garrick Turrel e sua jornada após a fuga da prisão não é bem o que parece.

A fala de Garrick é o ponto alto do filme e da atuação de A.J.Bowen. O homem parece ter mais consciência sobre o peso dos seus atos do que três homens que nunca mataram ninguém (não que a gente saiba). Ele sabe que o que fez não é uma coisa boa e muito menos culpa da ex-namorada. Há certos pontos no monólogo que cabiam até numa interpretação sobre relacionamentos abusivos.

Garrick mata os três sujeitos e acaba sendo ferido por um deles, mas consegue libertar Sarah. Há uma expectativa no reencontro dos dois, mas ela apenas olha de relance para Garrick e corre. Não há mais nada a dizer ou fazer. Acabou.

“A Horrible Way To Die” é uma obra prima do suspense, não só porque traz uma trama interessante e atual, mas porque trabalha com seus temas de forma responsável e sensível. Não enaltece atos de violência, foca nas consequências desses atos, no mundo das pessoas que os amavam, na humanidade inevitável dos assassinos (sem tirar sua culpa) e na responsabilidade de cada um para lidar melhor com esses ocorridos.

Se tivermos sorte, o filme sobre Ted Bundy com Zac Efron e Lily Collins conseguirá o mesmo, mas eu acho difícil que o faça com o mesmo brilhantismo de “A Horrible Way To Die”.


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