No ano passado, o canal CW anunciou e lançou o remake da série noventista Charmed. Muito amada pelo público da época (não por mim, porque nunca assisti), o remake causou um burburinho pela escolha de colocar como protagonistas três atrizes de etnias diferentes (uma negra e duas latinas). No original, o elenco era majoritariamente branco. Os fãs, nem esperaram a nova série sair antes de detona-la apenas pela mudança étnica das personagens (talvez nem todos, mas a maioria foi por isso), revelando o nada secreto racismo internalizado que temos por aí.
Charmed é uma série de fantasia/comédia e possuía um ar “informal” já no original e manteve essa aura no remake. Na série acompanhamos três mulheres comuns que descobrem que são bruxas, e não quaisquer bruxas, mas Encantadas (o Charmed do título é por isso).
Só em 2018 saíram pelo menos três séries sobre bruxas com destaque, a mais famosa O Mundo Sombrio de Sabrina da Netflix, além dela temos também A Discovery of Witches. O tema está em alta e isso é ótimo. Os enredos envolvem mulheres fortes e interessantes, mesmo que algumas acertem mais que outras em como abordar isso. Dentre as novas séries sobre bruxas Charmed se tornou a minha queridinha, não que ela seja perfeita.
Ao contrário de Sabrina, que não tem ritmo nenhum e cujos temas sobre gênero e representatividade soam falsos e panfletários (quase oportunistas), Charmed é divertida e certeira em sua abordagem.
Nas outras séries citadas, a diversidade é colocada no pano de fundo. Temos negros e gays, mas a protagonista ainda é branca e hétero. Charmed por sua vez, coloca as minorias no centro, como personagens e em seus enredos.
Mel (Melonie Diaz, excelente) e Maggie (Sarah Jeffery, meiga e ótima) são irmãs. Mel é lésbica e especialista em estudos feministas na faculdade, além de professora. Maggie, a mais nova é obstinada e confiante. Macy (Madeleine Mantock, a Veil de Into the Badlands, perfeita), a meia-irmã é uma cientista, forte e inteligente. Todas as três escapam dos esteriótipos atribuídos às mulheres negras e latinas nas produções hollywoodianas.
Até a magia praticada na série ganha novos contornos, ela une a clássica magia celta europeia com a Santeria, prática de magia iorubá. Tornando os rituais mais originais e imprevisíveis já que a audiência comum desconhece esses rituais.
Harry (Rupert Evans, fofura-em-forma-de-gente-meu-Frank Frink-amorzinho), o Luz Branca das Encantadas é o único homem branco de destaque e constância no enredo e mesmo assim sua personalidade reforça uma masculinidade saudável (bem como Galvin e Parker, respectivos interesses românticos de Macy e Maggie)
Em seus episódios, Charmed sempre engloba questões feministas e raciais e é mais inteligente do que as más línguas podem julgar. Um episódio sobre uma fada se transforma em discussão sobre relacionamentos abusivos, outro com a Medusa aborda o estupro e culpabilização das vítimas.
Só a oposição entre os Anciões (os líderes antigos e conservadores todos sempre vestidos de branco, não por acaso) e a Sarcana (grupo de bruxas rebeldes que querem quebrar as regras ultrapassadas dos Anciões, vestidas de preto) já denota um cuidado com os detalhes. Ainda que a qualidade CW seja discutível em questão de efeitos especiais, isso é coisa pequena em comparação ao resto da produção, que tem um elenco excelente e direção de arte que compensa a falta de recursos.
Outro ponto muito importante a destacar é o espaço para representação atrás das câmeras, todos os episódios são dirigidos por mulheres (como Jessica Jones havia feito), o que só salienta a força do reboot.
Nesse momento do mundo, é mais importante ver as três irmãs de Charmed de 2018 do que as dos anos 90 ou ver Sabrina e suas derivadas, que infelizmente não agregam muita coisa ao gênero de bruxaria(o que não te proíbe de ver, não me entenda mal). Dê uma chance a série e tenha a mente aberta, você só tem a ganhar.




0 comentários