Assassination Nation: Cor, Violência e a Morte (Merecida) De Uma Geração
Você pediu por isso, América.
Não é novidade para muitos que nos últimos anos o mundo tem vivido um tipo de onda conservadora, com passeatas pró nazismo, retiradas dos já escassos direitos das minorias e etc. Sempre que consegue-se um progresso, parece que surgem grupos reclamando a volta dos “antigos valores”. Isso se reforça ainda mais quando os maiores representantes das nações são os típicos “tios do zap”, preconceituosos e mentirosos. Se o Brasil tem o Jair, os E.U.A tem o Trump, e é justamente a América de Trump que as quatro jovens protagonistas de Assassination Nation vem desafiar.
De um lado nós temos os pais e professores, membros de uma geração já gasta e fechada com seus preconceitos, regras e certezas, que são seguros e estáveis (ou assim gostam de pensar). Do outro, nós temos a geração do “aqui e agora”, sempre conectada e dependente de atenção constante, alienada e perdida, mas progressista e mais aberta às mudanças.
Esse choque geracional vai ter um ápice violento e sem conclusões definitivas, quando na cidadezinha de Salem (onde não por acaso, no passado, mataram mulheres que não se adequavam à norma, os eventos do filme se apresentam como um tipo de herança maldita), um hacker começa a expor os segredinhos sujos dos “cidadãos de bem”. Primeiro é o prefeito homofóbico que gosta de se vestir como mulher quando ninguém está olhando. A pressão que sofre depois que suas fotos são vazadas é tanta que o sujeito se mata em frente a uma multidão enfurecida.
No centro da narrativa está uma jovem chamada Lily (Odessa Young) e suas três amigas: Em (a atriz Abra, a única negra do grupo), Bex (Hari Nef) uma jovem trans e Sarah (Suki Waterhouse). As quatro são inseparáveis e vão passar pelo pão que o diabo conservador amassou.
Lily é uma jovem de 18 anos, inteligente e esperta. Ela é bem consciente sobre as relações de gênero e feminismo, mas isso não impede que ela namore Mark, um cara escroto e abusivo (interpretado por Bill Skarsgaard) ou mande fotos íntimas para um homem mais velho e casado, seu vizinho, Nick Mathers (o sobrenome de um inquisidor de Salem não é coincidência) a quem ela chama de Daddy. Afinal como eu disse, é uma geração aberta ao novo, mas ainda são apenas jovens e crianças nascendo num mundo insano.
O filme vai explorar melhor apenas as personagens de Lily e Bex, o que é uma pena, mas não chega a ser um problema. Aos poucos nós vamos conhecendo elas e os problemas que passam cotidianamente. Lily tem uma família fechada e distante, com quem não se identifica. Já Abra não consegue ser ela mesma numa escola e comunidade que exalam transfobia.
A trama apresenta algumas situações para nos ambientar sobre os riscos da exposição na internet, sobre o julgamento apressado que fazemos dos outros (muitas vezes totalmente hipócrita e baseado em boatos) e de como as pessoas preconceituosas simplesmente estão a um passo de enlouquecer por viverem numa prisão auto imposta. É como se elas estivessem sempre em uma nuvem de paranóia e medo e quando alguém ameaça mostrar quem elas são de verdade, essa nuvem explode em violência.
Num certo momento, as fotos de Lily são vazadas e ela vira alvo do puritanismo da comunidade. Ela é perseguida, julgada, ferida, abandonada pela família e abusada. Tudo por causa de fotos (alguém lembra da Luísa Sonza recentemente?). Sem nenhuma culpa da situação, Lily vira o bode expiatório dos vazamentos e do alto nível de tensão em que os habitantes vivem. Eu me pegava pensando enquanto assistia em como seria muito fácil isso acontecer na vida real. Assustador.
As multidões querem alguém para queimar, então quem melhor do que a jovem Lily e suas amigas? Num crescente raivoso e louco, a cidade se reúne para ser júri, juiz e carrasco. Eles deixam todo o seu pior se mostrar enquanto caçam as jovens numa noite que lembra a perseguição das supostas bruxas na antiga Salem.
Chegando aos seus limites, as quatro resolvem que é hora de revidar. Nesse ponto o filme vira um merecido banho de sangue, nunca sendo gratuito e inconsequente. O ato das amigas é a voz que precisamos, é o grito desesperado de jovens que não querem viver com a porcaria que seus pais inventaram. Elas querem ser livres e tem esse direito.
Sendo uma mulher feminista, foi extremamente libertador vê-las se defendendo e lutando. O fim do filme é abrupto e as palavras do descoberto hacker (“eu fiz pelo lolz” termo comum na comunidade incel) são perturbadoras e um alerta para a sociedade desconexa e inconsequente e ainda recheada de preconceitos. Ela é parte de nós.
O filme também não se apega a moralismos baratos ou na oposição maniqueísta entre o novo e o velho. Com a figura do diretor da escola em que Lily e suas amigas estudam, vemos um homem adulto que é aberto às novidades. No culpado pelos vazamentos, testemunhamos os jovens da cultura incel, tão conservadora e preconceituosa quanto as antigas certezas sociais.
O filme de Sam Levinson é um show visual, as cores são fortes e vibrantes, o ritmo é alucinado a fim de passar a sensação desse mundo jovem desregrado. O elenco está absurdamente bom, as jovens atrizes são muito competentes e talentosas. Também tem uma dose de metalinguagem que vai agradar quem gosta. É certamente um dos filmes de terror mais estilosos lançados recentemente. Acima de tudo é um filme que tem algo a dizer e o diz usando tudo que é possível. Luz, cores, ângulos e cortes te dizem para prestar atenção e ouvir. Ouçam.
Por último, ficam as perguntas: Que mundo nós queremos deixar? Que valores queremos passar? O que de bom podemos tirar do passado e do presente e, principalmente, como podemos evitar que sejamos para sempre Nações Assassinas?




0 comentários