A Garota: Alfred Hitchcock e o Assédio em Hollywood Antes do Movimento "Me Too"

by - maio 04, 2018


As denúncias contra o produtor Harvey Weinstein no ano passado abalaram as estruturas de Hollywood, era novidade pra muita gente e era notícia velha para outras. O que importa é que as coisas estão mudando e cada vez mais casos de abuso, agressão e assédio estão saindo da escuridão e alcançando o grande público. Heróis e ídolos estão sendo revisitados e, quase que invariavelmente, destruídos. Isso é ótimo.

O filme da HBO "The Girl" ou A Garota em português, saiu tem alguns anos e passou batido aqui no Brasil, outra produção envolvendo a história de bastidores de filmes de Alfred Hitchcock ganhou mais atenção: Hitchcock: Os Bastidores de Psicose, para mim uma versão muito açucarada e Disney sobre quem o diretor era. 

Toby Jones como Alfred Hitchcock.

"The Girl" aborda a convivência fora dos holofotes de Tippi Hedren (Sienna Miller) e Hitchcock (Toby Jones) e, diferentemente do filme com Anthony Hopkins, temos uma mulher escrevendo o filme (a roteirista Gwyneth Hughes) e em sua produção, o que faz bastante diferença na maneira como os assuntos são abordados. Hedren estrelou dois filmes do diretor "Os Pássaros" e "Marnie", era modelo e atriz de comerciais antes do diretor se interessar por ela porque, bem ela era loira.

Tippen ficou bastante grata, pois Alfred já tinha bastante renome na época e era então sua grande chance de se tornar uma estrela. O custo para tal foi muito mais alto do que ela podia imaginar.
Hitchcock já possuía má reputação acerca do tratamento com as atrizes, Vera Miles que o diga, o homem chegava até mesmo a querer escolher a cor da roupa íntima que ela usava e não suportou a ideia dela engravidar, ele odiava mulheres que engravidavam. Doce não é?

No início, Hitchcock trata Tippi com muita gentileza e entende a gratidão dela e a cordialidade como um convite a uma investida sexual. Num momento a sós em que ela está dormindo, ele a assedia. Hedren obviamente o rejeita e a partir daí o diretor fez da vida dela um inferno.
Hedren era acossada, ameaçada e até mesmo colocada em perigo físico, apenas por ter negado os avanços de um homem mais velho e casado que deveria ser profissional. É nesse momento em que o diretor começa a chama-la apenas de "A Garota".

Vivendo um pesadelo no set de "Os Pássaros".

Mas Tippi não é fraca e encontra em si resignação suficiente para não fugir e encarar até o fim a situação, por sua família e por si mesma.
Alfred poderia possuir um complexo sexual por não ser fisicamente atraente, e ter um casamento estranho, mas e se não o fosse o que ele faria com isso? Assediaria mais ainda e com mais confiança em si mesmo, disso eu tenho certeza.

O filme acerta em cheio ao focar mais na atriz e mostrar de fato como era estar ao lado do homem que a havia assediado e ter que fingir que estava tudo bem o tempo todo. Diferente de "Os Bastidores de Psicose" que fez dele um velho bobo e inofensivo, apenas excêntrico, aqui ele é quase um personagem de filme de terror. Cada chegada e aproximação dele é recebida com temor. Como deveria ser.

A fala final é genial. Alfred acusa Tippi de ser uma mulher frígida, uma estátua sem sentimentos e é por isso que o rejeitou. Ela responde que ele está errado, que pegou uma mulher calorosa e cheia de vida e a transformou num bloco de mármore. Isso pouco antes de fazer a última cena de Marnie, o alívio dela é comovente.

Hitchcock infelizmente não era uma pessoa admirável, mas um predador sexual controlador e misógino. Ele fez boas obras cinematográficas? Sim, com certeza. No entanto, isso não deveria apagar ou perdoar seus erros.

As atuações estão excelentes, Sienna Miller entrega uma mulher forte, mas ao mesmo tempo sensível aos eventos e que teve que descobrir sua força pela maldade dos outros. Toby Jones é um Alfred Hitchcock fisicamente distante da realidade (mesmo Anthony Hopkins era), mas seu tom e trejeitos são perfeitos. Dá muito medo dele e um nojo tremendo.

O filme é bem dirigido e tecnicamente bem produzido, ainda que o formato seja para televisão. É até uma vantagem pois pôde fugir dos excessos e moldes que tanto fizeram mal a sua contraparte.
No fim, a lição que fica é que precisamos parar de proteger os artistas homens que cometem crimes e erros desse tipo. A arte deles não vale mais que a vida de uma mulher ou de qualquer um.

Ficha Técnica:

Título: The Girl (A Garota).
Ano: 2012.
Direção: Julian Jarrold.
Elenco: Sienna Miller, Toby Jones, Imelda Stauton.

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