O Silenciamento do Abuso e o Machismo Como Artifício do Horror Sobrenatural em "Os Demônios de Dorothy Mills"

by - abril 04, 2018




Aviso: Esse texto contém alguns spoilers.

Não se deixe enganar pelo título, esse filme não é mais uma produção sobre uma menina possuída pelo demônio e que passa por um exorcismo no fim. Os demônios de Dorothy são bem humanos e nem sequer são dela, são os demônios que qualquer um de nós poderia carregar dentro de si ou pelo menos ter parte da responsabilidade por eles existirem.


Comecemos pela trama geral. Jane (Carice Van Houten) é uma psicóloga inglesa que acabou de perder o filho em um acidente, ela decide como meio de superação partir para a Irlanda a fim de tratar um caso estranho envolvendo uma menina de 15 anos que tentou matar um bebê. A menina em questão é Dorothy Mills (Jenn Murray). 



Quando Jane chega no pequeno vilarejo é recebida com os olhares hostis da população local, principalmente pelos homens, que chegam a fazer comentários sexuais agressivos a respeito dela. O vilarejo parece um lugar perdido no tempo, onde mulheres devem obedecer aos maridos cegamente, ficar em casa, andar de cabeça baixa e não serem sexualmente ativas. Se forem qualquer coisa assim, merecem e estão pedindo por punição. Isso soa familiar?



Aos poucos, Jane vai se aproximando de Dorothy e diagnostica a menina com transtorno de personalidade, já que ela parece assumir quatro personalidades distintas: uma criança pequena, dois rapazes e uma moça. Mas o que a princípio parece delírio mostra ser uma verdade perturbadora.



Jane descobre que a moça que Dorothy encarna em um de seus momentos, foi estuprada e morta por "cidadãos de bem" do vilarejo, os dois rapazes que ela também manifesta eram seus amigos e ao ver a cena do abuso tentam salva-la sendo também assassinados. O crime é encoberto e é um tipo de verdade sabida por todos, mas nunca dita. 



Jane e Dorothy confrontam os moradores e mais uma vez a arte de ignorar a violência prevalece num fim agridoce que eu não vou detalhar.




O roteiro do filme foi escrito por Juliette Sales e Agnés Merlet, esta também dirige a obra. Duas mulheres. Não por acaso o filme fala tanto sobre abuso, misoginia e silenciamento de vítimas. Dorothy é vista como louca porque fala o que todos temem ouvir, revela a realidade que todos preferem esconder. Por ter o dom de se comunicar com os mortos é agredida psicológica e fisicamente e apenas uma outra mulher é capaz de sentir ternura por ela. 


Para alguns o filme pode parecer lento, mas Merlet sabe o que está fazendo e nos dá tempo para sentir empatia pelas personagens e sentir a atmosfera do lugar em que estão. As atuações de Carice e Jenn são maravilhosas, uma entrega digna de suas personagens.



Mais do que um suspense sobrenatural com tons de drama, "Os Demônios de Dorothy Mills" mostra a consequência de atos de violência, sobretudo da violência contra a mulher. Algo que no vilarejo era ignorado e tido como normal. A dor é sufocada em favor de nossas vidas seguirem sem alterações. Preferimos virar o rosto a nos envolver, tapamos os ouvidos e fechamos os olhos porque é mais fácil assim. Enquanto isso, mulheres são violentadas, assediadas, agredidas e mortas, muitas vezes com o discurso de que elas estavam pedindo por isso. 





Os homens agressores são protegidos, são perdoados e ganham chance de redenção. Às mulheres vítimas cabe a morte literal ou psicológica até que alguém decida levantar a voz e defende-las, não mais aceitando a injustiça. No caso de Dorothy, ela serviu de canal para os mortos buscarem essa justiça já que os vivos não fizeram nada. 


Mas até quando nós vamos ignorar essas violências? Até quando pessoas tidas como indesejáveis, sujas e inadequadas sofrerão e terão esse sofrimento diminuído e justificado por não serem os ditos "cidadãos de bem"? Por que existem pessoas que consideramos descartáveis? 


Os demônios de Dorothy não estão do Inferno, estão em cada um de nós e em nossas ações de forma direta ou indireta e esse filme expõe isso, não nos deixa virar o rosto e fingir que não é com a gente. Sempre é.

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