Os Espaços Liminares no Terror
- O que são Espaços Liminares?
De acordo com o texto "Starring the Landscape: On the Road Again – Horror In Liminal Spaces." essencialmente, um 'Espaço Liminar é um limiar, ponte ou portal. É qualquer lugar que está entre, de ou a caminho de outro lugar. Os espaços liminares não são lugares onde alguém realmente vive, porque são espaços de transição'. Basicamente, um Espaço Liminar é um entremeio, uma forma de chegar ao seu destino e não o seu destino em si (pontes, corredores, túneis, estradas, elevadores, etc.). Os Espaços Liminares no entanto, não se aplicam apenas a lugares físicos/materiais, também dizem respeito a estados emocionais, estágios da vida, do corpo humano e à subjetividade (os sonhos, a adolescencia, o coma, mudanças de casa, etc.), nesse caso, os E.L. se aplicam a um estado de espírito que está no caminho de outro (os sonhos são o meio entre o sono e o despertar, por exemplo).
- Por que causam medo/desconforto?
Ainda de acordo com o site Geeking Out about It os E.L. nos tiram da zona de conforto, nos fazem questionar a normalidade das coisas, tornam estranho e bizarro algo trivial e cotidiano. Evocam uma falta de sentido, um vazio, a perda de propósito de um lugar. "Espaços liminares são lugares onde o véu entre os mundos é tênue, onde coisas e pessoas podem passar para o nosso mundo, seres humanos podem passar inadvertidamente para fora deste e eventos paranormais podem ocorrer".
- Como os Espaços Liminares são usados nas produções de horror?
- Vivarium: filme de 2020, disponível na Amazon Prime Video. A trama começa simples: um casal buscando uma casa para comprar, é levado a um subúrbio bizarro do qual não pode mais sair.
- El Incidente: filme mexicano de 2014, de Isaac Ezban. Conta três tramas a princípio sem relação, mas que aos poucos revelam ser paralelas. Todas elas se ambientam em tipos de espaços liminares: uma escadaria, uma estrada e o corredor de um hotel.
- Suite 313: média metragem lançado em 2013 de Aaron Pederis. Um policial atendendo a chamado em um prédio acaba se deparando com perigos sobrenaturais. Aqui, o espaço liminar é ampliado pelo uso da câmera em 1ª pessoa.
- The Backrooms: curta de found footage, baseado em creepypastas sobre espaços inacabados do mundo. Ninguém sabe quais são os seus limites nem por que eles existem.
- Silent Hill: talvez o primeiro jogo a explorar a noção de espaço liminar como fonte de medo e cenário principal. A ótima adaptação cinematográfica explora os mesmos ambientes e cenários ao contar a história de Rose e sua filha Sharon, que pode ter uma ligação do passado com a cidade fantasma Silent Hill.
- Ruptura: Série da Apple+ que aborda um futuro não muito distante no qual os trabalhadores podem optar por uma “alienação” literal em sua consciência, deixando suas memórias pessoais do lado de fora do local de trabalho. O primeiro escritório a usar dessa técnica é cheio de espaços liminares para criar uma eterna sensação de desconforto e irrealidade.
- Não Feche Os Olhos: filme indie de 2021 sobre uma jovem com problemas para dormir devido a estranhos sonhos que ela testemunha quando cai no sono. Para tentar resolver, ela se envolve num teste médico que tem o objetivo de gravar os sonhos dos pacientes e decifrar seus problemas internos. É então que a barreira entre realidade e sonhos começa a se romper.
- Absentia: um dos primeiros trabalhos de Mike Flanagan, mistura suspense, drama e terror para contar a história de duas irmãs enfrentando um mistério acerca do sumiço do marido de uma delas e o estranho túnel perto de sua casa.
- The Night: um casal em crise precisa passar a noite em um hotel durante uma viagem. Por acaso (ou não) eles param em um hotel aparentemente normal. Porém, ao avançar da noite, coisas bizarras começam a acontecer e o casal percebe que o lugar não é tão seguro quanto imaginavam.
- O Iluminado: Jack Torrance arruma um trabalho para cuidar de um antigo hotel durante o inverno. Levando sua esposa e o filho consigo, ele também espera conseguir terminar um romance que está escrevendo. O grande problema é que o Hotel Overlook não é um lugar comum.
- Twin Peaks: série clássica de David Lynch, se concentra na investigação do assassinato da jovem Laura Palmer na cidade de Twin Peaks. Mas, como em toda obra de Lynch, o mistério está bem abaixo da superfície cotidiana.
- Southbound: antologia excelente que se passa numa rodovia dos EUA e acompanha as pessoas que estão viajando nela. Cada trama é ligada discretamente entre si e evoca a sensação de estranheza e desolação.
- Dawn of the Dead (1978): muito melhor que a versão de Zack Snyder, o filme de zumbi que acompanha sobreviventes isolados em um shopping, faz uma boa exploração de seus cenários para ampliar o sentimento de incerteza e desemparo dos personagens.
- Channel Zero- No End House: a segunda temporada da série antológica de Nick Antosca, trata de uma misteriosa casa que aparece e some do nada e que é capaz de levar seus ocupantes a uma outra versão de sua realidade. Obscura e melancólica.
- It Follows: com um trabalho de câmera bom em explorar corredores e paisagens amplas, It Follows usa esses espaços para exponenciar o perigo iminente pelos quais os jovens protagonistas, perseguidos por uma entidade sobrenatural desconhecida, estão sujeitos.
- Possession: ao voltar para casa depois de um tempo longe a trabalho, Mark encontra Anna, sua esposa, demonstrando um comportamento estranho. A cada dia pior, ele coloca um detetive na cola da mulher pra saber a verdade por trás das suas atitudes. O que todos vão descobrir é totalmente inexplicável e aterrorizante. O diretor explora vários espaços liminares para demonstrar o estado mental de seus personagens.
- Temos Vagas: casal em vias de divórcio, precisa pernoitar em um hotelzinho de beira de estrada. O que eles não imaginam é que o lugar tem perigos mortais que os fará lutar por suas vidas. Bom uso do cenário delugarzinho de fim de mundo estadunidense.
- O Colecionador: suspeitando que o noivo a está traindo, uma jovem decide vasculhar os pertences que ele guarda em um prédio de depósitos. Ao chegar no lugar, o que ela descobre é bem mais obscuro do que uma traição.
- Cubo: estranhos acordam em um lugar bizarro, sem saber como e por que. A cada sala que atravessam, perigos desconhecidos podem ceifar suas vidas. A liminaridade aqui está na incerteza do que virá a seguir em cada nova sala.
- Estou Pensando em Acabar com Tudo: quase todo filmado dentro de um carro, acompanhando um jovem casal em viagem. Tanto o livro quanto o filme, evocam uma sensação de estar perdido e preso num lugar estranho, sem ter como voltar para casa.
- In Fear: outro casal de viagem é o foco aqui. Dessa vez, viajando para um hotel no interior da Irlanda, dois jovens ficam num looping por uma estradinha isolada. Será que estão sozinhos nela? Tenso e agoniante.
- A Cela: tentando salvar a filha de um político importante que foi sequestrada, uma equipe formada por psicólogos, liderada pela doutora Catherine tenta um método heterodoxo: entrar na mente do criminoso e explorar sua perturbada psique. O diretor Tarsem Singh tem um olhar único para criar os cenários mentais expostos no filme.
- Cidade dos Sonhos: mais uma produção de David Lynch, esse filme tem uma narrativa intrincada, cheia de possibilidades de interpretação. Na trama, a jovem Beth conhece uma misteriosa mulher desmemoriada, durante a sua jornada para se tornar uma atriz em Hollywood. Ao tentar ajudar a mulher, Beth irá se envolver num mundo obscuro e inexplicável. O espaço liminar aqui está intrinsecamente conectado ao roteiro.
- Uncomfortable Liminal Spaces and the Horror Films that Influence Them. Disponível em: <https://www.scarystudies.com/liminal-space/>
- Starring the Landscape: On the Road Again – Horror In Liminal Spaces. Disponível em: <https://tvgeekingout.wordpress.com/2021/07/02/starring-the-landscape-on-the-road-again-horror-in-limnal-spaces/>

0 comentários