O ano era 2008 e eu era apenas uma menina de 15 anos frequentando a oitava série, não era popular na minha turma, era o extremo oposto disso na verdade. Havia muita dor dentro de mim naquela época, muito não-dito ecoando e nenhuma experiência para lidar com aquilo. Parecia que nada ia melhorar nunca, mas foi aí que ele apareceu: com a voz rouca, o jeito lento de falar e um mundo interior cheio de assombro e cores. Clive Barker me guiou para um universo do qual eu nunca mais iria querer sair. Mas vamos com calma e contextualizar algumas coisas.
Clive Barker é um escritor, roteirista, dramaturgo, diretor e artista plástico (ufa!) britânico que vive nos EUA. É o criador de Hellraiser, sua obra mais famosa. Nos altos dos meus 15 anos pouco contato eu havia tido com ele, eu sabia do filme Hellraiser e que ele era famoso no meio do gênero de terror, nada mais. No entanto, desde meus 13 anos eu tinha uma sementinha obscura germinando em meu cérebro, seus ramos produziam em mim todo tipo de imagem maligna. Em minha ingenuidade infantil eu escondia tudo da minha família, mesmo eu tendo escrito minha primeira história de terror na 2ª série do primário, eu achava que eles iam me julgar estranha, assim como todo mundo na escola.
Eu escrevia pequenos textos, fazia desenhos macabros em pedaços de papel que em seguida iam para o lixo, tudo para me proteger do julgamento alheio, vindo especialmente do patriarca da minha família. Eu criava e destruía compulsivamente e sofria com isso a cada vez.
Em meio a idiotas na escola e a critica familiar eu me sentia acuada, presa e estava convencida que havia algo errado comigo por pensar em monstros, fantasmas, mutilações e gostar disso tudo. Só podia ter, já que ninguém ao meu redor era assim. Minha mãe que costumava desenhar já não fazia mais isso pra eu ter um apoio, então era difícil acreditar que seria compreendida. Que dias melancólicos.
Foi então que estreou o filme "O Último Trem"/"Comboio da Morte" ou "The Midnight Meat Train", como sempre gostamos de filmes de terror na minha casa (irônico eu me sentir estranha, não é?), meu pai comprou o filme em DVD e uma noite nós ficamos juntos para assistir. Não é um filme que eu seja fã, não o acho ruim, mas não consigo gostar dele (outra ironia), ele tem o tipo certo de sangue e violência, mas falta alguma coisa nos personagens e na atmosfera. O que importa aqui não é filme, mas o que ele tinha de extra.
No conteúdo extra do DVD havia um tópico entitulado Clive Barker: O Homem Por Trás do Mito ou algo assim, e meu pai o selecionou para ver. Eu estava apenas sentada no sofá, meio entediada e sem nenhuma ideia de que minha vida nunca mais seria a mesma, mas é assim com os grandes momentos, aqueles que são divisores de água, nunca estamos preparados ou esperando por eles.
Quando aquele homem apareceu e começou a falar eu mergulhei num vórtice mágico, numa viagem até a escuridão e a luz de outro ser humano e me vi refletida ali. Me reconheci. Me encontrei.
Num momento do pequeno documentário Clive fala sobre como começou a pintar e um trecho é especial:
"Foi como se eu descobrisse uma nova vida esperando por mim [...] Descobri que tenho tudo isso esperando para brotar de mim. [..] Um lugar seguro, sem ser perguntado do porquê. [...] O por quê é o assassino da arte."
São as palavras dele, mas era como se estivesse lendo minha mente, me libertando, me dando a chance de ser eu mesma.
Enquanto eu observava suas pinturas cheias de vida e cores, ainda assim tão assustadoras, minha mente pulsava de ideias. Imagens me invadiam, dezenas por minuto, era como uma represa que havia arrebentado. Eu via criaturas se apinhando na minha imaginação, suplicando para saírem. No dia seguinte, criei quatro desenhos de monstros em seguida. Sem culpa, sem medo, nada que me trancasse. Onde tivesse julgamento eu teria Barker para me proteger dele.
Assim como para ele, a arte do horror me dá sentido e significado para viver.
Em um documentário dos anos 90, Clive diz que a arte deve mudar a vida das pessoas, e que é com esse tipo de arte que ele se preocupa. Sei que muitos podem se perguntar como cenas grotescas, mortes violentas, sangue, monstros e horrores diversos podem ser positivos.
Eu não me preocupo mais, porque cada vez que essa dúvida surge para mim eu me lembro da menina tímida, triste e desesperada por um caminho e por aprovação, que encontrou um farol em um britânico de meia idade. Que foi capaz de mudar a vida de uma pessoa exatamente com essa arte tão menosprezada e incompreendida, mas tão necessária e ancestral, que é a Arte do Horror.
Deixo por fim, um recado do cantor Voltaire de sua música "Death, Death (Devil, Devil, Devil, Devil, Evil, Evil, Evil, Evil Song)", caso vocês ainda se questionem, ainda tenham medo e dúvida sobre esses demônios em suas mentes. E deixo também alguns desenhos originais, espero que ajudem vocês de alguma maneira.
"Então eu cantei...Mórbidas, diabólicas e malignas canções. Bem, você sabe que é assim que eu me dou bem. O mundo está cheio de tragédia, então como isso poder errado?"







