É admirável o modo como boas obras permanecem relevantes mesmo após muito tempo de seu lançamento. Sua mensagem permanece atual e dizendo coisas importantes para a nossa sociedade. É o que acontece com Sandman de Neil Gaiman, a graphic novel do autor britânico teve seu início no fim dos anos 80, correndo por quase uma década e em suas 75 edições, fora os especiais, Gaiman criou uma obra de arte eterna. O enredo segue o Rei dos Sonhos, Morfeus, que após ser aprisionado por um mago acidentalmente, passa 70 anos em isolamento e acompanha as consequências que advém com a sua posterior liberdade.
Hoje em 2018, relendo a graphic eu me deparei com a edição 17, dentro do arco "Terra de Sonhos", entitulada "Calíope". A trama, passando bem por cima, acompanha um escritor em crise chamado Richard Madoc que procura um velho, também escritor, que diz possuir uma fonte de inspiração certa pra resolver qualquer bloqueio criativo. Essa solução não é uma coisa, mas uma mulher, uma das 9 musas gregas, Calíope. O velho a manteve cativa por toda vida e agora a passa para Madoc em troca de um objeto de magia.
Calíope e Morpheus no passado foram amantes e tiveram um filho juntos, Orfeu. No entanto, seu relacionamento não acabou bem, com muitos ressentimentos de ambas as partes.
Calíope assim como o ex amado fica prisioneira por anos, sendo violentada sucessivamente por Madoc. A primeira inspiração dele inclusive, chega logo após ele violentar a musa pela primeira vez, e quando o faz o homem a desumaniza, dizendo pra si mesmo que Calíope nem sequer é uma pessoa de verdade.
Gaiman não é sutil com a sua crítica aqui: homens usam as mulheres em benefício próprio, não se importando com a violência praticada contra elas, só com as vantagens que adquirem através da mesma.
O autor dá várias alfinetadas no tipo de escritor que Madoc representa, aquele artista que acha que as obras são feitas depois de um lampejo de inspiração quase milagroso e não com muito estudo e trabalho, quem já leu as introduções de contos escritos por Neil sabe o quanto ele não gosta desse tipo de representação do trabalho artístico.
Há um momento muito ácido em que Madoc está numa festa e um convidado o elogia por suas personagens femininas bem construídas, ao que Madoc declara:"Sempre me considerei um escritor feminista". Refletindo a hipocrisia masculina e a ausência de autocrítica da violência que praticam contra mulheres quando ninguém está vendo (alguém mais se lembrou do James Franco com o botton apoiando o movimento "Me Too" e sendo acusado logo depois de assédio?).
Calíope em seu desespero por liberdade clama que Morpheus a ajude a ser livre, ele o faz também castigando Madoc pelo tempo de abusos que a mulher teve que passar, sua maldição é ter ideias em abundância porque foi o que ele sempre desejou, afinal. Madoc enlouquece terminando no vazio criativo.
A última conversa entre Calíope e ele é emblemática e enfatiza a objetificação feminina e a sua permanência como musas inspiradoras, mas nunca como criadoras e artistas, ela diz: "Sou mais do que um receptáculo para sua semente ou uma inspiração para suas histórias". Isso é lindo e triste ao mesmo tempo.
Gaiman é cirúrgico em suas críticas aqui, desconstruindo essa romantização da mulher-objeto e fonte de inspiração masculina, que desumaniza, que reduz e limita a presença delas na história da arte apenas desse modo, quase nunca como artistas e criadoras.
Fazendo a ponte com uma obra mais recente e que vai exatamente no caminho contrário, está o filme "Mãe!" de Darren Aronofsky. Eu não vou tocar nas metáforas bíblicas aqui porque isso tem por aí aos montes, eu vou falar na representação feminina do filme.
A personagem de Jennifer Lawrence no filme é (ao que parece) uma designer de interiores que está montando a casa onde ela e o marido, um escritor interpretado por Javier Barden, estão morando. Javier é o esteriótipo de artista tão odiado por Gaiman: o escritor que espera o lampejo milagroso de inspiração e tem ataques de afetação com qualquer um que atrapalhe isso.
Em boa parte do filme Barden está gritando com a esposa, isso foi me dando nos nervos. A personagem de Lawrence é extremamente apática e submissa e sempre que ela resolve levantar a voz e agir, é punida com violência. Se o filme colocasse isso como crítica, ok, mas a sensação é de mera ilustração, não há problematização alguma.
O personagem de Barden a tem como a musa inspiradora e da mesma forma que Madoc, abusa dela e age com agressividade, a individualidade de Lawrence pouco importa pra ele. O que importa é o sacrifício dela pra que ele consiga criar em paz.
Lawrence é usada até o fim do filme, a câmera a objetifica, a sufoca porque Aronofsky quer extrair o máximo de sua musa também, não é mesmo? Há cena de estupro disfarçada de sexo consensual e agressão física sexualizando o corpo da atriz. Isso não é crítica, é ilustração apenas.
A personagem de Lawrence é tudo que a Calíope de Gaiman não é: submissa e disposta a doar-se pelo homem artista mesmo que isso custe sua vida. Eu imagino esse filme numa inversão de gêneros:uma escritora casada com um homem mais jovem que se devota a ela sem se preocupar consigo mesmo, sendo agredido sucessivamente. Parece absurdo? Por que então o oposto é normal?
Eu quero ver mais mulheres artistas e criadoras como personagens e também na produção dessas obras. Essa ideia de musas imóveis é retrógrada e sexista, ainda mais quando ausente de uma reflexão sobre. Onde Neil Gaiman acertou brilhantemente ao pintar Madoc como uma pessoa e um artista medíocre, Aronofsky foi equivocado e passou a mão na cabeça desse tipo de sujeito, talvez por ele mesmo ser um pouco como Richard Madoc.
Deixo aqui embaixo o link do vídeo do canal Quadro em Branco sobre "Mãe!", o vídeo assim como o canal, é ótimo pra entender melhor os problemas desse filme, alguns citados por mim, outros não. Aproveitem!





